O ensaio para a formação de uma chapa Caiado-Zema ou Zema-Caiado oferece uma boa solução aritmética para a dupla de ex-governadores, que, ao menos em tese, juntaria seus índices de intenção de voto nas pesquisas e ganharia um pouco mais de musculatura eleitoral para competir com os líderes Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Os prós dessa composição praticamente se esgotam nessa somatória e no fato inconteste de que os dois pré-candidatos ao Planalto não nutrem nenhuma simpatia pelo presidente petista.
A partir desse ponto, são muitos os obstáculos para essa união entre os presidenciáveis Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, e Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais, que sinalizaram publicamente nos últimos dias a abertura de um diálogo em busca de uma possível composição.
O primeiro e mais óbvio obstáculo está em saber quem seria o cabeça da chapa e, automaticamente, quem ficaria com o posto de vice. Nem mesmo a matemática consegue dar hoje uma resposta objetiva, pois ambos estão tecnicamente empatados, variando entre 3% e 5% na maioria das pesquisas.
Em termos de estrutura, Caiado leva vantagem por estar em um partido muito maior e mais bem assentado. Porém, há menos coesão ideológica e alinhamento no PSD do que no Novo, que busca, com uma candidatura própria, superar a cláusula de barreira e se afirmar como opção clara da direita antipetista, encampando, inclusive, várias agendas do “bolsonarismo”.
Para o Novo, a candidatura própria é, antes de uma possibilidade de chegar ao Planalto, a oportunidade de sobreviver programaticamente no campo da direita brasileira, algo que a vitrine eleitoral pode facilmente proporcionar. Há ainda o desafio de ajudar na eleição de uma bancada parlamentar que mantenha o partido minimamente relevante no jogo congressual, nem que seja como linha-auxiliar do bolsonarismo.
Nem de esquerda, nem de direita, nem de centro
Do lado do PSD, a aposta é outra e em sentido contrário: crescer ainda mais, mas sem se atrelar definitivamente a nenhum dos astros que dominam as duas órbitas do espectro político-partidário nacional, o PL, de Flávio Bolsonaro, e o PT, de Lula.
Ou seja, quando analisada com lupa, a união entre o Novo e o PSD, que nasceu para não ser nem de esquerda, nem de direita, nem de centro e faz parte da gestão Lula, está longe de ser tão natural quanto dão a entender seus dois pré-candidatos.
O projeto político de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, ruma a uma espécie de “neutralidade” e não pressupõe, ao menos neste momento, uma aliança com posições “radicais” do Novo expressas, por exemplo, pelo deputado Marcel Van Hattem (Novo), pré-candidato ao Senado no Rio Grande do Sul, ou mesmo pelo próprio Zema, em guerra aberta contra o Supremo Tribunal Federal (STF).
Nos bastidores do Novo, não são poucos os que farão campanha para Zema e para Flávio Bolsonaro se o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) continuar sendo a opção mais viável para derrotar Lula. Em outras palavras, tem gente no partido torcendo para Zema não tirar muitos votos do senador no primeiro turno.
Não por outro motivo, tem causado enorme desconforto internamente no Novo os ataques que Zema tem desferido contra Flávio por conta das ligações do senador com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master. Importante, neste ponto, lembrar que Kassab está rompido com expoentes graúdos do bolsonarismo, mas não a ponto de se atrelar a Zema porque esse gesto, ao fim e ao cabo, poderia ser interpretado no Planalto como um rompimento definitivo com Lula, com o STF e todo o status quo da política nacional.
Assim, o ensaio da formação de uma chapa Caiado-Zema ou Zema-Caiado é mais um sintoma de um cenário pré-eleitoral ainda muito volátil, faltando praticamente dois meses para as convenções, conforme o calendário eleitoral. Somente o apoio formal de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) poderia materializar facilmente essa composição, o que parece improvável diante do comprometimento do governador de São Paulo com a família Bolsonaro.
Por ora, a aliança Caiado-Zema ou Zema-Caiado deverá seguir como uma válvula de respiro, quase um devaneio, para um grupo cada vez maior no mundo político e no eleitorado nacional que está cansado de ter de escolher entre Lula e os Bolsonaros.

