O presidente Lula intensificou as articulações para a montagem de seu palanque em São Paulo, estado estratégico também para os planos de reeleição do petista. Ele teve conversas nos últimos dias com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), e com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), nomes preferidos de Lula e do PT para disputar o Palácio dos Bandeirantes.
As conversas não tiveram desfecho conclusivo, segundo relatos. Mas tanto Alckmin quanto Haddad deixaram claro ao presidente que não gostariam de ir para o sacrifício em uma disputa contra o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que deve tentar a reeleição caso a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) ao Planalto sobreviva até abril.
O vice e o ministro são cotados tanto para o governo quanto para o Senado. A chamada “chapa dos sonhos” da esquerda paulista seria formada pelos dois. A possibilidade de uma candidatura ao Executivo estadual pode crescer caso Tarcísio consiga se viabilizar para a disputa presidencial, cenário que hoje não é visto como o mais provável. Ainda assim, Alckmin pretende permanecer onde está, enquanto Haddad quer atuar como principal coordenador da campanha de Lula neste ano.
Diante da indefinição, ganhou força nos últimos dias o nome de Simone Tebet (MDB), para concorrer ao governo paulista. Em 2022, quando disputou o Planalto, ela teve desempenho acima de sua média nacional no estado e ficou em terceiro lugar, com 6,34% dos votos válidos. A ministra do Planejamento recebeu convite para se filiar ao PSB e deve se reunir com Lula até o fim de janeiro para definir seu futuro eleitoral. Tebet, que tem base política em Mato Grosso do Sul, onde se elegeu senadora em 2014, é vista como uma peça estratégica, capaz de conquistar apoios no agronegócio e atrair eleitores de classe média que historicamente rejeitam o PT em São Paulo.
Segundo interlocutores, ela seguirá a decisão de Lula, podendo ser candidata ao governo ou ao Senado. Tebet teria o mesmo perfil “agregador” de Alckmin, que venceu o PT em três disputas pelo Bandeirantes e governou o estado por quatro mandatos. Em 2001, era vice e assumiu o cargo após a morte de Mario Covas. Mesmo dentro do PT há quem defenda o nome de Alckmin como a melhor opção para enfrentar Tarcísio, caso ele dispute a reeleição, ou qualquer outro candidato da centro-direita, embora as maiores pressões internas sejam por uma candidatura de Haddad.
Os defensores de Alckmin ou Tebet argumentam ainda que, além de furarem a bolha petista, ambos poderiam melhorar o desempenho de Lula e garantir boa votação no interior paulista, onde a força do agronegócio tem favorecido candidaturas de viés conservador.
Desde sua criação, em 1980, o PT jamais venceu uma eleição para o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do estado onde o partido foi fundado e ganhou projeção nacional. O próprio Lula foi derrotado na disputa de 1982.
Outros dois nomes citados como possíveis candidatos são os de Márcio França (PSB) e Marina Silva (Rede). Avaliam líderes partidários que apenas com esses quatro nomes Haddad, Alckmin, Marina e França seria possível montar uma chapa competitiva em São Paulo, com um candidato ao governo, um a vice e dois ao Senado.
Há ainda Guilherme Boulos (PSOL), ministro da Secretaria-Geral, sempre lembrado pela esquerda para disputas majoritárias. Ele, no entanto, assumiu compromisso com Lula de permanecer à frente da pasta até o fim do mandato, apesar das pressões do PSOL para que concorra a deputado federal e ajude a puxar votos para o partido. Além disso, enfrentaria dificuldades de penetração no eleitorado do interior, por conta de seu histórico como líder de movimentos sociais.
No caso de Marina Silva, que recebeu convite para se filiar ao PSB ou mesmo retornar ao PT, a avaliação é de que ela tem forte desempenho na capital, mas encontra resistência no interior por causa de sua atuação como ambientalista e das críticas do agronegócio.
Até agora, quem mais tem demonstrado disposição para encarar o desafio e sonha em voltar ao Bandeirantes é Márcio França, ministro do Empreendedorismo. Ainda assim, líderes petistas afirmam que ele seria a última opção de Lula. França não desperta entusiasmo nem mesmo na cúpula de seu partido, o PSB.
Em privado, dirigentes dos principais partidos que apoiam Lula em São Paulo avaliam que a definição passará pela decisão de Tarcísio sobre concorrer ou não à reeleição. Se ele deixar o cargo para disputar o Planalto, os nomes colocados até agora tendem a se animar para encabeçar a chapa. Por ora, Haddad, Alckmin, Tebet e Marina, se forem escalados para a disputa de outubro, preferem o Senado. Com Eduardo Bolsonaro (PL) praticamente fora do jogo, a esquerda vê grandes chances de eleger ao menos um senador por São Paulo.
Em 2022, dirigentes do PT afirmavam que Lula travaria uma batalha decisiva contra Jair Bolsonaro em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, com impacto direto no resultado final da eleição. Apesar da derrota no estado, o atual presidente obteve 44,76% dos votos válidos, o equivalente a 11.519.882 votos, contra 55,24% do adversário, que somou 14.216.587 votos no segundo turno. Essa votação foi considerada determinante para a vitória nacional de Lula. Quatro anos antes, em 2018, Bolsonaro havia aberto uma diferença de 35,94 pontos percentuais sobre Fernando Haddad no segundo turno.
Para este ano, a meta do PT nacional é, no mínimo, manter o desempenho de Lula no mesmo patamar de 2022 e, se possível, ampliá-lo, especialmente se o adversário no segundo turno for o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e, assim como ele, com base eleitoral no Rio de Janeiro. Caso o candidato seja Tarcísio, a tarefa petista se torna mais complexa.