A implementação da reforma tributária tem aquecido as contratações de profissionais especializados para atender a mudanças no modelo de negócios de grandes e médias empresas. Um levantamento da Assigna, empresa do Talenses Group, mostra um aumento de 130% nas vagas de analista fiscal, tributário e de tax entre o primeiro e o segundo semestre de 2025. No comparativo entre os primeiros semestres de 2025 e 2026, o aumento é de 138,5%.
O Talenses Group faz a ponte entre esses profissionais e as empresas. A necessidade não se limita ao pessoal da área tributária, mas chega ao universo jurídico com oportunidades, principalmente, no contencioso.
O movimento é mais intenso nas empresas de grande e médio porte, segundo Isis Borge, sócia-diretora da Assigna, devido à complexidade maior do tema para elas. Borge explica que as empresas têm montado comitês voltados para a reforma, constituídos pelas pessoas mais experientes que já trabalham nelas. Dessa forma, a consultoria de recursos humanos entra no jogo tanto para cobrir as áreas que esses profissionais deixam quanto para contribuir com sêniores que ajudarão nas tomadas de decisões.
Outro estudo, conduzido em maio de 2025 pela Robert Half, já apontava que 53% das empresas brasileiras contratariam pelo menos três novos colaboradores a partir do semestre seguinte. À época do levantamento, 58% das grandes corporações pretendiam incluir ao menos três pessoas em seu quadro. Outras 33% pretendiam buscar cinco ou mais. Entre as pequenas e médias, pretendia-se abrir de duas a quatro vagas.
Os dados são corroborados por Rubens Tavares, CEO da BMS Consultoria Tributária. Assim que a reforma entrou em vigor, ele contratou 60 profissionais. Tavares aposta que a consultoria — e as contratações — vão crescer nos próximos anos.
“Não é mais um tema do departamento fiscal. É uma mudança no modelo de negócios. Preço, margem, contrato, fluxo de caixa, sistemas e cadeia de fornecedores passam a depender de uma leitura tributária que antes não existia. E isso não acontece de uma vez”, diz.
Mudança qualitativa
Allan Fallet, sócio tributarista do Almeida Advogados, já tinha a percepção de que a reforma produziria uma procura por profissionais especializados porque deixaria de ser predominantemente uma discussão legislativa e passaria para a operação das empresas. Ele e Rubens Tavares concordam que o volume de contratações não é o mais importante, mas a demanda por alta qualificação e por experiência nesses profissionais.
“Mudou o perfil do profissional procurado. Não basta conhecer a nova legislação. É preciso interpretar um sistema em formação, lidar com questões ainda não sedimentadas e, sobretudo, converter uma conclusão tributária em uma decisão empresarial segura e estratégica”, comenta Fallet.
Tavares explica que o perfil que busca hoje mudou muito. Antes, bastava dominar o sistema atual: ICMS, PIS/Cofins, ISS, com anos de jurisprudência consolidada. “Hoje o profissional precisa de formação contábil e jurídica combinada, precisa estar dentro da reforma no dia a dia, acompanhando cada ato regulatório”, afirma.
Para o CEO da BMS Consultoria Tributária, dessa forma, há uma “escassez de gente boa”, já que a demanda por esses profissionais é muito alta e nem sempre é possível reunir todas as experiências necessárias. “Quem conseguir juntar conhecimento técnico sólido com a capacidade de transformar esse conhecimento em resultados para o negócio do cliente vai ganhar bem até 2032, porque a transição é longa e exige competência”, diz Tavares.
Ele enxerga oportunidades claras. Entre elas estão a consultoria tributária com viés contábil e jurídico para diagnóstico setorial e a precificação e a modelagem de margem e caixa. Outro horizonte aberto envolve a revisão de contratos de médio e longo prazo e a tecnologia fiscal e integração de ERP (sistemas internos) com a plataforma RTC (portal da Receita Federal). A emissão de notas fiscais, a operacionalização do split payment e a atuação no contencioso tributário também entram na lista.
Há duas posições que faltam no mapa e que são críticas, avalia Tavares. A primeira é o profissional de Project Management Office (PMO) de reforma tributária, quem acompanha todas as ações necessárias para a transição e coordena o cronograma, as prioridades e as dependências entre os times. A outra é o participante do comitê para a reforma: “aquele profissional que senta com executivos do cliente, com órgãos públicos, com outras empresas do setor para desenhar como a reforma vai funcionar na prática”, explica.
Esse perfil deve mudar novamente ao longo da transição. “Entre 2029 e 2032, por exemplo, teremos a substituição progressiva do ICMS e do ISS pelo IBS. Na mesma medida em que o sistema começa a ser aplicado em escala e as primeiras divergências interpretativas surgem, tende a crescer a demanda ligada ao novo contencioso, administrativo e judicial”, pontua Fallet.
O contencioso abre as portas
Carolina Bottino, uma das novas sócias da área tributária do Demarest Advogados, compartilha da opinião de Rubens Tavares e Allan Fallet sobre as oportunidades para atuar no contencioso tributário. “Apesar de o grande chamariz da reforma ser a simplificação, não tenho visto isso na prática. Ações discutindo o IBS e a CBS na base de cálculo do ICMS já são realidade e outras ações discutindo inconsistências na legislação serão ajuizadas em breve”, diz Bottino.
Fallet reforça que não há jurisprudência consolidada sobre o IBS e a CBS e que a própria doutrina está, ainda, em construção. Os profissionais, portanto, terão de enfrentar problemas para os quais não existirá resposta pronta em um precedente. “É justamente nesse ambiente que a experiência e a capacidade técnica ganham valor”, diz ele.
O profissional precisará conhecer a fundo a Constituição, a legislação complementar e a lógica econômica do novo modelo. Além disso, para Fallet, deverá acumular a experiência com o contencioso de ICMS, ISS, PIS e Cofins sem incorrer no erro de transportar as soluções que eram usadas com os outros tributos para o IBS e a CBS.
Bottino observa que muitos de seus clientes têm discutido a inclusão do IBS e da CBS na base de cálculo do ICMS, por exemplo. “Essa é uma preocupação de todos, em todas as áreas. Setores que não eram tributados pelo ICMS e pelo ISS, como o de locação de equipamentos, por exemplo, têm nos procurado com muitas dúvidas sobre o cumprimento de obrigações acessórias”, diz.
No que diz respeito às carreiras jurídicas, Bottino também tem percebido o mercado mais aquecido na área tributária, principalmente para vagas de nível pleno e sênior.
Nos últimos dois anos, o Demarest contratou quatro sócios na área tributária, principalmente para atuar no Rio de Janeiro, em função da maior demanda de clientes. Com a entrada de Bottino, a área passa a ter 20 sócios nos escritórios de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte.

