O ataque dos Estados Unidos à Venezuela e captura do ex-presidente Nicolas Maduro evidenciou, de forma bastante explícita, o interesse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em controlar as reservas de petróleo do país. Especialistas consultados pelo JOTA avaliam que a estratégia pela dominação desse recurso é mais um movimento das políticas anticlima do republicano, que vêm realizando um desmonte nas políticas ambientais nos EUA ao mesmo tempo que busca retomar o papel central dos combustíveis fósseis na economia norte-americana. Controlar a cadeia produtiva global do petróleo e reforçar a soberania energética dos EUA fazem parte dessa estratégia, mas não necessariamente afetam a transição energética global em andamento, segundo esses especialistas.
Paralelamente, Trump vem reiterando sua vontade de anexar a Groenlândia, região do Ártico que forma parte do território da Dinamarca e que é rica em minerais críticos e terras raras fundamentais para a transição energética e para a indústria da tecnologia. O movimento do republicano vai no mesmo sentido: garantir a soberania energética do país e, mais além, controlar o mercado global desses minérios, hoje nas mãos da China. Isso obrigaria os países e empresas a negociarem com os EUA ao mesmo tempo que atenderia aos interesses da poderosa indústria de tecnologia norte-americana por acesso a matérias-primas.
“Uma das consequências do aquecimento global é o degelo do Ártico, facilitando o acesso às reservas de minerais críticos da Groenlândia. Esses minerais são estratégicos não só para a produção de energia renovável, mas para a economia e os interesses do setor privado americano”, afirma a diretora da Impacta Estratégica, consultoria em governança global e riscos, Carolina Pavese, em entrevista ao JOTA.
Petróleo no centro da geopolítica
Em relação à Venezuela, Pavese enxerga um outro objetivo que vai além de garantir o controle da produção do petróleo: o controlar o mercado venezuelano também significaria controlar o acesso de potências rivais, como a China e Rússia, à América Latina, região que passou a depender menos de parcerias comerciais com os EUA nas últimas décadas.
“Movimentos como esse mantêm o petróleo no centro da geopolítica energética e acentuam sua valorização. Isso é ruim para a transição energética e para as políticas de mitigação de mudanças climáticas, mas também é ilusório acreditar que haveria um abandono total do petróleo”, conclui.
Segundo o relatório Edgar de 2025, os EUA estão em segundo lugar no ranking global de maiores emissores de gases do efeito estufa, atrás somente da China, e Trump já antecipou que espera investimento de empresas americanas nas petrolíferas venezuelanas. O ataque à Venezuela isoladamente não deve dificultar a transição climática global, mas é uma “ofensiva de Trump contra a tentativa urgente de parar a queima de combustíveis fósseis”, analisa Marta Salomon, especialista sênior em políticas climáticas no Instituto Talanoa.
A ofensiva contra o país sul-americano representa, nesse sentido, mais um movimento de uma série de políticas anticlima da atual gestão do republicano. No dia 8 de janeiro, Trump retirou os EUA de 66 tratados de colaboração climática, como a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Ele também criticou abertamente o investimento em energias renováveis no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, dizendo que “usinas eólicas são coisas de perdedores”.
“A queima de combustível fóssil é a principal fonte de emissão de gás de efeito estufa no planeta, portanto, a solução climática depende radicalmente da redução dessa queima. Os Estados Unidos, com essa cabeça “drill, baby, drill” (slogan de Trump para perfurar em busca de fontes fósseis), não ajudam nem um pouco a transição energética”, conclui Salomon.
Em busca do ouro negro
A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo e o petróleo considerado mais “sujo” pela sua composição. Trump pode estar tentando sanar uma demanda das refinarias norte-americanas ao tentar retomar o potencial produtivo dos campos petrolíferos do país. “O Golfo do México é um parque industrial que está operando com menor capacidade por conta do embargo ao petróleo venezuelano. São refinarias especializadas em refinar esse óleo pesado. Se você tira o embargo, permite que o petróleo volte a fluir para os Estados Unidos”, avalia o jornalista Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima.
Angelo afirma que aumentar a demanda interna nos EUA e baratear o preço do barril venezuelano — uma das possíveis consequências do aumento produtivo dos campos de petróleo — “reduz a inflação no país e, de quebra, ajuda a tirar do mercado ou tornar menos atraentes as tecnologias de energia, como os carros elétricos, produzidos hoje basicamente pela China”.
Eduardo Viola, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), explica que há um excesso de oferta de petróleo neste momento. “Mas, por outro lado, também há uma necessidade crescente de eletricidade, por causa da inteligência artificial e dos data centers. O investimento nesses centros está crescendo extraordinariamente nos Estados Unidos”. Esse elemento, segundo ele, justificaria a busca de Trump pela dominação de fontes de energia, como o petróleo.
Pavese frisa que a Venezuela também é muito rica em minérios estratégicos, como algumas terras raras. Portanto, para ela, o interesse do presidente americano na Venezuela ultrapassa o controle do petróleo, mas também visa a mineração dessas commodities. “Nesse sentido, também entende-se o interesse de Trump na Groenlândia”, conclui.
Groenlândia: a fonte para a indústria tecnológica
Em entrevista à Fox News no dia 22/1, Trump disse, após semanas ameaçando anexar militarmente a Groenlândia, que está negociando “acesso total” à região autônoma. Para o professor Viola, tudo que o Trump fala da segurança do Ártico não tem o menor sentido. O principal interesse é outro: “Há os minerais críticos e terras raras, que com o degelo, sua exploração pode se tornar mais viável”, explica.
As estruturas de captação de energias renováveis, como os painéis solares, redes de transmissão e baterias de carros elétricos, dependem fundamentalmente de minerais críticos. No entanto, Angelo, do Observatório do Clima, analisa que o interesse de Trump nessa região objetiva facilitar o acesso da “galera do Vale do Silício” — isto é, empresas de tecnologia norte-americanas — a esses minerais essenciais para as cadeias de produção de indústrias tecnológicas.
Viola pondera, contudo, que o custo de extração dos minerais críticos pode ser muito alto na Groenlândia, por conta das densas camadas de gelo. Ao mesmo tempo, ele considera que as fontes de energia renováveis construídas a partir desses minérios são extremamente competitivas com as energias fósseis.
Trump, portanto, parece apresentar a mesma lógica de controle de cadeias produtivas nas ofensivas contra a Venezuela e contra a Groenlândia. Hoje, a China é o maior produtor e exportador de minerais estratégicos, como terras raras. Além de possuir as maiores reservas do mundo, controla as tecnologias de extração e refino desses minérios. Outros países, incluindo os EUA, dependem da China para acessar essas matérias-primas. “Num futuro no qual os EUA tenham as reservas minerais sob seu controle, poderão fazer o que a China faz, e impor condições a outros países”, conclui Angelo. Nesse cenário, empresas e países interessados nos minerais críticos seriam obrigados a negociar com os Estados Unidos.

