O que está por trás do avanço das ideias de direita no Brasil

O Brasil está dobrando à direita nos últimos anos. Pesquisa recente realizada pelo Datafolha classificou 44% dos brasileiros como de direita ou centro-direita, ante 39% à esquerda ou centro-esquerda, com 17% no “centro”.

O resultado inverte o quadro de 2022, quando a esquerda somava 49% e a direita, 34%. Embora na economia, de maneira geral, as posições associadas à esquerda sigam em primeiro lugar, o estudo revela um crescimento de posições de direita.

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Segundo o levantamento, 50% dos brasileiros preferem pagar menos impostos e contratar serviços particulares de saúde e educação, enquanto 44% defendem pagar mais tributos para receber esses serviços gratuitamente do Estado. Há quatro anos esses números eram 46% e 48%, respectivamente.

Além disso, a parcela de brasileiros que associam a pobreza à “preguiça de pessoas que não querem trabalhar” foi de 22% em 2022 para 40% em 2026, o maior valor da série histórica da pergunta desde 2013, quando o instituo começou a fazê-la.

A maior mudança do brasileiro em relação a 2022 no sentido da direita se concentra principalmente nas questões de comportamento (temas como armas, homossexualidade, religião etc.). Nesse eixo, a direita soma agora 52%, ante 29% da esquerda e 20% do centro. Há quatro anos, direita e esquerda estavam em empate técnico, com 39% e 42%, respectivamente.

O que estamos vendo na sua essência é um crescimento da lógica protestante que, como já dizia Max Weber, um dos pais da sociologia, cria condições para a proliferação da ideologia capitalista liberal no campo econômico-político. Não por acaso esse processo de direitização do país ocorre quando o Brasil apresenta quantidade recorde de evangélicos e o menor número de católicos da sua história. Segundo dados do último Censo, entre 2010 e 2022 a proporção de católicos caiu de 65,1% para 56,7%, enquanto a de evangélicos saiu de 21,6% para 26,9% da população.

Esse crescimento evangélico, porém, não ocorreu apenas de forma espontânea. Como revelado por documentos históricos e estudos, como o do historiador Rodrigo de Sá Netto, na década de 1950 teve início na América Latina uma guerra psicológica colocada em prática pelos EUA com efeitos que perduram até hoje.

Na sua tese de doutorado “O Partido da Fé Capitalista – Organizações religiosas e o imperialismo norte-americano na segunda metade do século XX”, Sá Netto demonstra que, para tentar combater o avanço do comunismo e da doutrina católica da “teologia da libertação” que proliferavam na região, os EUA enviaram ao Brasil milhares de missionários conservadores de diferentes religiões, principalmente evangélicas, com o objetivo de popularizar versões reacionárias da fé cristã.

O objetivo era implantar e defender governos capitalistas subservientes – vários deles ditaduras militares na época– que se opusessem ao comunismo e se alinhassem à economia de mercado utilizando-se especialmente de pastores que conquistavam os mais pobres prometendo redenção espiritual e alívio financeiro no mesmo sermão, a chamada “Teologia da prosperidade”.

O que essa mudança de mentalidade significa para a democracia? A mistura entre religião e política, liberalismo na economia e conservadorismo nos costumes, encontra abrigo perfeito no seio da extrema direita. Para o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) João Cezar de Castro Rocha, o Brasil é um laboratório mundial de criação metódica de realidade paralela pela extrema direita. Segundo ele, está ocorrendo no país a consolidação das condições para a instauração de um estado totalitário fundamentalista religioso.

Segundo Rocha, o ecossistema midiático bolsonarista se utiliza, através de plataformas de mídias digitais, das mesmas estratégias de produção e divulgação de desinformação, fake news e teorias conspiratórias usada em larga escala pela extrema direita mundial. Isso tem criado no país uma realidade paralela, um “Brasil paralelo”, com a produção de forma coletiva de processos de dissonância cognitiva, fraturando a espinha dorsal dos valores democráticos e cristãos no país.

Dissonância cognitiva é o desconforto psicológico gerado quando as ações, crenças ou pensamentos de um indivíduo entram em conflito. Para aliviar essa tensão, ele busca justificativas ou altera suas percepções para alinhar atitudes e crenças, muitas vezes recusando dados da realidade que contrariam suas ideias e buscando reforçar o que já pensava por meio de outras informações, inclusive falsas.

“Há dezenas de milhões de brasileiros que parecem não compreender o perigo. E muitos desses brasileiros e brasileiras são pessoas que nós conhecemos, (…) não são pessoas más, cuja índole pudesse suspeitar que apoiariam o que está ocorrendo. É um processo de lavagem cerebral coletiva, um processo de criação de dissonância cognitiva coletiva. (…) Nunca estivemos numa situação tão grave na história da República”, afirma o professor.

Entretanto, a chave para se contrapor a esse cenário, como já discutido em artigos anteriores desta coluna, encontra-se na própria pesquisa Datafolha. Embora a maioria da sociedade brasileira seja conservadora nos costumes e o pensamento econômico de direita esteja crescendo, a concordância com bandeiras da esquerda na economia continua à frente no país, com 46% contra 28% da direita e 26% do centro.

Mesmo no levantamento do Datafolha há indicativos, já revelados também por outras pesquisas anteriores, de que o povo brasileiro não possui um perfil liberal de direita e de que as mentalidades estão em disputa. De acordo com a pesquisa, 71% dos brasileiros afirmam que o governo deve ser o maior responsável por investir no país e fazer a economia crescer, por exemplo.

Portanto, no fundo o problema não é tanto a presença ou não do Estado na economia que incomoda, mas a falta de retorno dos impostos pagos pela sociedade na forma de serviços públicos de qualidade, tais como educação, saúde, transporte. Nessa ausência do Estado, o discurso liberal do empreendedorismo acaba aparecendo como uma solução individual para problemas coletivos.

O fato de o Estado brasileiro não entregar serviços públicos de qualidade, apesar da alta carga tributária nacional, é um problema histórico que foi inclusive a principal razão que motivou as revoltas de junho de 2013, as quais deram início a uma série de manifestações pelo país que se prolongaram pelos anos seguintes e que acabaram sendo cooptadas pela direita, criando o germe da extrema direita, impulsionada pelo discurso antissistema.

Sendo assim, uma forma de combater a ideologia individualista de direita que cresce na sociedade consiste em fazer com que finalmente o Estado brasileiro entregue serviços públicos de qualidade e que os governos ditos progressistas criem um projeto coletivo de sociedade que realmente tenha como objetivo melhorar a vida da maioria do povo de forma estrutural e sustentável, e não apenas episódica como até então tem sido na nossa história, recuperando a esperança das pessoas no futuro.

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É uma ilusão perigosa acreditar que é possível resolver problemas coletivos por uma ótica individualista. Em nenhum lugar do mundo, nem mesmo nas pátrias-mães do liberalismo (Inglaterra e EUA), o Estado absteve-se de intervir na economia e de oferecer alguma forma de serviços públicos às suas populações.

Ao se acrescentar ainda a religião à política, mistura também já comprovada para o desastre, tem-se o desenho de um quadro extremamente perigoso para a democracia brasileira. As soluções para os problemas de uma sociedade passam necessariamente pela política, ou seja, pela ação coletiva do povo na pólis e não pela ação individual no universo privado onde impera a lógica do “cada um por si e deus por todos”.