Embora a corrida eleitoral esteja apenas no começo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, já definiu as bases do que defenderá na área econômica durante as eleições 2026. Tanto ele quanto sua consultora, Daniella Marques, adotaram a responsabilidade fiscal como o centro do discurso da campanha. A dupla não tem poupado críticas à gestão do governo Lula, que, segundo eles, gasta desordenadamente mais do que arrecada, gerando elevação nas taxas de juros.
Como solução, Flávio tem proposto um “freio de arrumação” e um “tesouraço” para ajustar as contas públicas. Já Daniella defende a criação de um “Conselho Superior de Governança Fiscal”, envolvendo os Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado.
O histórico no Congresso
A atual cautela com os gastos, porém, está longe de ser uma constante na vida política do candidato. É o que revela um levantamento exclusivo do JOTA com base nas principais deliberações do Senado durante o mandato do parlamentar. Os votos de Flávio indicam posicionamentos mais liberais e pró-mercado quando se trata de carga tributária, defesa da propriedade e política monetária. Por outro lado, ele apresenta uma postura menos rígida em relação ao controle de despesas, tendo apoiado medidas contrárias ao rigor fiscal.
Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio ocupou posição estratégica durante o governo liderado pelo pai (2019-2022) e refletiu as orientações do então chefe do Executivo. Ao mesmo tempo em que defendia a redução de impostos e reformas estruturais, mostrou-se um defensor de benefícios tributários para setores específicos e do aumento de transferências sociais. Os posicionamentos favoráveis à PEC dos Precatórios e à chamada “PEC Kamikaze” evidenciam a avaliação de que os regramentos fiscais poderiam ser flexibilizados para atender a outras prioridades políticas ou sociais.
De acordo com o levantamento, o parlamentar registrou presença em 77% (876) das deliberações nominais durante o seu mandato, ausentando-se em 23% (258) das ocasiões. Como muitas matérias relevantes são votadas de forma simbólica, sem o registro individual no painel, a pesquisa do JOTA também levou em conta declarações públicas e discursos registrados nas notas taquigráficas das sessões. Assim, foi possível resgatar o posicionamento do senador sobre os temas de maior relevância econômica, selecionados pelo JOTA.
Os dados destacam, ainda, outros pilares do pensamento econômico de Flávio Bolsonaro, como o apoio às privatizações e à independência do Banco Central em relação ao Poder Executivo.
1. PEC da Previdência (PEC 6/2019)
Uma das primeiras grandes votações de que Flávio participou como senador foi a Reforma da Previdência, que estabeleceu idade mínima para aposentadoria e mudou as regras de cálculo do benefício. Ele se posicionou favoravelmente à matéria, votando a favor do texto-base em dois turnos sob o argumento da necessidade de ajuste fiscal. Atuando na base do governo, o parlamentar defendeu as categorias de segurança pública, pleiteando especificamente que os guardas municipais recebessem tratamento previdenciário semelhante ao dos policiais militares, o que não avançou.
Recentemente, o tema voltou aos holofotes. Em junho de 2026, o coordenador de sua pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), afirmou que um eventual governo promoveria uma nova reforma da Previdência. Dias depois, no entanto, o próprio Flávio Bolsonaro recuou, declarando rejeitar novas alterações nas regras de aposentadoria e prometendo manter a valorização do salário mínimo.
2. Reforma Tributária (PEC 45/2019)
Foi neste tema que o senador teve sua maior divergência com o setor industrial. Enquanto a CNI atuou como principal fiadora da matéria no setor privado, Flávio figurou entre seus maiores críticos na Casa Alta, chegando a dizer que a reforma faria o Brasil “sair do manicômio tributário para o inferno”. Ele votou contra a PEC e apoiou uma emenda que limitaria a alíquota final do IVA a 20%, patamar considerado arbitrário pelo relator, Eduardo Braga. O parlamentar também se opôs aos projetos de regulamentação (PLPs 68/2024 e 108/2024).
O histórico revela um parlamentar focado na redução das alíquotas, mas resistente à simplificação do sistema tributário, diretriz central do texto. Na pré-campanha, após receber críticas, tentou modular o discurso. “Quando eu falo de suspender a regulamentação da reforma tributária, é para dar tempo pra gente fazer uma reforma tributária negativa, com redução de carga tributária ao longo dos anos, com previsibilidade, com ajuste fiscal”, disse, em evento da CNI.
3. Desoneração da folha dos 17 setores
Flávio Bolsonaro se posicionou favoravelmente à continuidade da desoneração da folha de pagamentos, regra que permitia que as empresas substituíssem a contribuição previdenciária patronal de 20% sobre a folha de salários por uma contribuição de 1% a 4,5% sobre a receita bruta. A regra tem duas facetas: de um lado, desonera os setores intensivos em mão de obra; do outro gera um déficit fiscal sobre a previdência social.
Acompanhando a maioria do Senado, ele votou em 2020 pela derrubada do veto presidencial que impedia a prorrogação do benefício até 2021. Posteriormente, durante a tramitação do projeto que estendeu o prazo até 2027, apoiou requerimentos para acelerar a aprovação e, de novo, ajudou a derrubar o veto do Executivo. Após a judicialização do caso, o parlamentar fez questão de registrar voto contrário ao PL 1847/2024, que trazia o acordo entre Poderes pela reoneração gradual. Ele argumentou que o Congresso já havia decidido a favor dos setores “que mais geram empregos no Brasil” e criticou a postura do governo Lula de acionar o STF após sofrer derrotas no Legislativo.
4. PEC Kamikaze
Em 2022, o Senado votou a chamada “PEC Kamikaze”, que viabilizou gastos em ano eleitoral contornando exigências constitucionais. O texto decretou estado de emergência para liberar R$ 41,25 bilhões fora das regras fiscais. O montante foi destinado à expansão do Auxílio Brasil e do vale gás, criação de benefícios para caminhoneiros e taxistas, financiamento da gratuidade no transporte para idosos e compensação a estados que concederam créditos de ICMS sobre o etanol.
A proposta foi aprovada por unanimidade no Senado, com participação ativa de Flávio na articulação. À época, o impacto foi criticado por parlamentares que apontavam um drible ao Teto de Gastos, à Regra de Ouro e à LRF, com objetivo eleitoral. Flávio, no entanto, seguiu a tese do então governo, defendendo que não havia irresponsabilidade, pois receitas extraordinárias da Petrobras cobririam o rombo.
5. PEC dos Precatórios
Outro projeto fiscalmente sensível defendido pelo candidato foi a PEC dos Precatórios, que limitou o pagamento de dívidas judiciais da União e retirou essas despesas do teto, gerando um passivo bilionário rolado para os anos seguintes. Logo no início da tramitação, Flávio argumentou que a manobra abriria espaço orçamentário para o Auxílio Brasil, compra de vacinas e repasses aos municípios, rejeitando acusações de que a proposta representava um escambo político com o Congresso. Na análise dos destaques, ratificou o voto a favor do mecanismo de limitação.
6. Autonomia do Banco Central
Flávio tem sido um defensor de propostas que blindam a autoridade monetária de ingerências do Executivo. Ele foi favorável ao PLP 19/2019, que estabeleceu mandatos de quatro anos para os diretores do BC, não coincidentes com o mandato presidencial, e acabou com a subordinação hierárquica a ministérios. Mais recentemente, o apoio reapareceu na PEC 65/2023, que trata da autonomia financeira. Embora não tenha protagonizado a articulação na CCJ, Flávio foi um dos signatários originais da proposta.
7. Privatização da Eletrobras (MP 1031/21)
A desestatização da Eletrobras foi um dos grandes embates sobre o papel do Estado na economia durante o mandato de Flávio Bolsonaro. O senador votou pela aprovação da medida provisória enviada pelo governo Bolsonaro. Por outro lado, também apoiou a controversa inclusão de “jabutis” que obrigavam a contratação de termelétricas a gás, pequenas centrais hidrelétricas e a extensão de contratos do Proinfa. Além disso, foi a favor da manutenção de garantias da União em contratos firmados pela empresa e subsidiárias antes da privatização. O dispositivo sofria resistência sob o argumento de que o Estado não deveria atuar como avalista de uma companhia sob controle privado.

