Mercadante prepara entrada na campanha e amplia time econômico de Lula

O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, deverá tirar férias em setembro para se dedicar à campanha de reeleição do presidente Lula (PT), segundo interlocutores ouvidos reservadamente. A participação será informal, sem ocupar cargo oficial na estrutura da campanha, mas com atuação em duas frentes consideradas estratégicas: a formulação da política econômica de um eventual quarto mandato e o núcleo político responsável pela coordenação geral da disputa.

A decisão representa uma mudança em relação ao plano inicialmente discutido no Palácio do Planalto. Ainda em julho, Lula chegou a pedir que Mercadante se licenciasse da presidência do BNDES para integrar a campanha. O presidente do banco, porém, argumentou que poderia contribuir mais permanecendo no cargo, usando a vitrine institucional do BNDES para defender realizações do governo e responder às críticas da oposição.

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Um dos argumentos apresentados por Mercadante é que o banco desembolsou bilhões de reais em projetos estratégicos espalhados pelo país, muitos deles pouco conhecidos pela população. Na avaliação dele, a permanência na presidência do BNDES permitiria dar visibilidade a esses investimentos e reforçar a narrativa de entregas do governo federal.

O caso de São Paulo costuma ser citado como exemplo. Na campanha estadual, Fernando Haddad pretende explorar a participação do governo federal em grandes obras frequentemente associadas ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Entre elas está o túnel Santos-Guarujá, cuja estrutura financeira conta com participação relevante do BNDES. Para Mercadante, permanecer no comando do banco fortalece esse discurso, contrapondo-se às repetidas falas de Tarcísio de que o governo federal coloca pouco dinheiro no estado.

O movimento de Mercadante surge justamente como uma solução para conciliar as duas funções. Durante esse período, ele poderá atuar diretamente na campanha sem o risco de questionamentos sobre eventual uso do horário de trabalho ou da estrutura do banco público em atividades eleitorais.

Sua entrada na campanha ganhou força depois da crise provocada pelas declarações públicas e pelos relatos de uma conversa entre o coordenador do programa de governo, Sergio Gabrielli, e representantes da Faria Lima. No encontro, em julho, Gabrielli apresentou propostas que geraram forte reação no mercado financeiro, como aumento do salário mínimo acima das expectativas e mecanismos de controle de capitais.

As declarações ocorreram sem o aval do Ministério da Fazenda ou do ex-ministro Haddad, que lideram as discussões sobre a política econômica de um eventual Lula 4. A repercussão levou o presidente nacional do PT, Edinho Silva, a desautorizar publicamente Gabrielli, afirmando que as definições cabem exclusivamente ao presidente Lula e que o porta-voz da campanha para assuntos econômicos é o ministro Dario Durigan.

Embora Mercadante seja historicamente identificado com uma ala mais desenvolvimentista do PT, relatos de integrantes da campanha indicam que ele também ficou incomodado com o desgaste provocado pelo episódio com Gabrielli. A avaliação compartilhada por interlocutores é que a antecipação de propostas econômicas sem coordenação acabou produzindo um ruído desnecessário num momento em que a campanha busca transmitir previsibilidade ao mercado.

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Nos bastidores, integrantes da campanha afirmam que o episódio consolidou uma divisão de tarefas. Caberá a Mercadante colaborar na formulação e nas discussões estratégicas, mas as diretrizes da política econômica de um eventual quarto mandato deverão continuar sendo elaboradas pela equipe formada por Haddad e hoje instalada na Fazenda.

Além de Haddad e Durigan, também participam dessas discussões os ministros Bruno Moretti (Planejamento) e Esther Dweck (Gestão). A entrada de Mercadante na campanha, portanto, tende a ampliar o peso político do debate econômico, sem alterar, ao menos por ora, o centro de gravidade da formulação da agenda fiscal e macroeconômica do eventual governo Lula 4.