Os recentes sinais emitidos pelas pesquisas indicam que Lula (PT) está longe de ser um candidato imbatível na disputa pela reeleição, conforme muita gente da política, especialmente no petismo, chegou a imaginar no final do ano passado. As mais recentes sondagens mostram o senador Flávio Bolsonaro (PL) em trajetória ascendente nas simulações de segundo turno, enquanto o presidente está estagnado ou oscila para baixo em grande parte dos levantamentos.
Esse simples “retrato do momento eleitoral” bastou para provocar abalos e motivar especulações nos blocos da esquerda, liderado por Lula, e da direita, encabeçado, principalmente, pelo filho mais velho de Jair Bolsonaro. Do lado esquerdista, voltaram as conversas de bastidores que tratam da possibilidade de Lula desistir da reeleição, hipótese que chegou, inclusive, a ser testada em pesquisas para consumo interno.
Em um dos cenários especulados, o presidente seria substituído por Fernando Haddad (PT), com quem mantém uma relação paternal. O ex-ministro da Fazenda vem se preparando e sendo preparado para ser um dos “herdeiros” do enorme capital eleitoral de Lula. Independentemente de essa troca ocorrer ou não, o fato é que apenas a formulação da questão “o que aconteceria se Lula desistisse?” basta para deixar mais evidente como o sistema político brasileiro ainda orbita em torno do presidente.
Em outras palavras, a simples formulação dessa hipótese já é uma demonstração do abalo sísmico de grandes proporções que deverá ocorrer na política nacional quando chegar o fim da “Era Lula” e ele estiver, definitivamente, aposentado. Parece ser pouco provável a desistência de Lula, um candidato ainda muito forte e competitivo, `a frente de um governo com realizações e conquistas capazes de sustentar uma boa narrativa eleitoral. Porém, e se ele continuar caindo nas pesquisas nos próximos meses e, realmente, desistir?
O primeiro efeito será acabar de vez com a disputa interna na esquerda sobre quem será seu sucessor imediato. Obviamente, o novo candidato seria escolhido pelo próprio Lula que, assim, anteciparia o jogo que vem sendo jogado rumo a 2030. Além de Haddad, outro nome forte disponível conforme a legislação eleitoral é o do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), mas é pouco provável o PT aceitar alguém sem história no partido para uma missão dessa envergadura.
Se escolhesse mesmo Haddad, Lula jogaria água no chope do ministro Guilherme Boulos (PSOL), do ex-prefeito do Recife João Campos (PSB), da ex-ministra Simone Tebet (PSB), e de Flávio Dino, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) que foi adicionado às listas de apostas de presidenciáveis depois de ter proposto uma reforma do Judiciário. Todos eles jogam o jogo de 2030 e apostam na reeleição do petista para se manterem relevantes politicamente até o final da “Era Lula”.
Pela centro-direita, o efeito imediato seria o acirramento da disputa entre Flávio, Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), alguns dos atuais pré-candidatos a presidente desse campo neste ano. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que decidiram jogar o jogo futuro, teriam, necessariamente, de rever suas estratégias para um dia chegar ao Planalto, pois uma vitória de Haddad, a exemplo de Flávio, daria ao próximo presidente a possibilidade de concorrer à reeleição em 2030.
Quem conhece o presidente Lula faz avaliações distintas em privado sobre a possibilidade da desistência. Segundo um de seus interlocutores, ele não encara a eleição deste ano como uma batalha de vida ou morte e irá enfrentá-la em qualquer cenário ou circunstância. Prova disso, seria a frase dita recentemente ao jornal alemão “Der Spiegel” sobre o que acontecerá se Flávio vencer: “Quando o povo toma uma decisão, seja de direita, de esquerda ou de centro, temos que aceitar esse resultado”.
Outros dizem que Lula não estaria disposto a encerrar sua carreira com uma derrota para Flávio ou qualquer outro candidato da direita. Esse grupo entende que o presidente, aos 80 anos, poderia antecipar a aposentadoria para ocupar alguma posição no tabuleiro da geopolítica internacional e “ir pescar” nas horas vagas. Nesse caso, avaliam, ele teria de convencer a atual primeira-dama, Janja da Silva, de sua decisão, visto que ela é uma das principais defensoras do projeto de reeleição.
Hipóteses e especulações à parte, os próximos meses de pré-campanha serão decisivos para uma medição mais acurada do verdadeiro grau de competitividade do atual ocupante do Palácio do Planalto.
Se tudo permanecer como está, Lula chegará com boas chances na campanha, que tem início oficial previsto para agosto. No entanto, caso a atual tendência das pesquisas eleitorais seja mantida e, principalmente, se as avaliações de seu governo não melhorarem, é muito provável que o presidente Lula tenha de tomar uma decisão extremamente importante para sua biografia: sair de cena ainda este ano ou encarar aquela que vem se configurando como uma das eleições mais difíceis de sua longa trajetória política.
Longo Prazo
Nikolas Ferreira tem participado ativamente nas articulações em torno da formação de palanques presidenciais em Minas Gerais. Um conhecedor dos bastidores da política mineira avalia que o jovem deputado do PL não tem se preocupado em ajudar Flávio Bolsonaro, pelo contrário. Seu projeto de futuro passa pelo enfraquecimento total da família do ex-presidente para, em 2030, lançar-se candidato ao governo e apoiar Tarcísio de Freitas para presidente.
Feridas abertas
A entrada de Pablo Marçal na pré-campanha de Flávio Bolsonaro repercutiu muito mal em parte da direita paulista, especialmente no grupo ligado ao prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB) e ao governador Tarcísio de Freitas. O motivo? Basta lembrar que, em 2024, Nahuel Medina, assessor do influencer, agrediu com um soco Duda Lima, então marqueteiro de Nunes, na campanha eleitoral daquele ano.
Feridas abertas 2
Duda Lima, que comandou o marketing da campanha de Jair Bolsonaro em 2022, permanece como o responsável pela comunicação do PL e obteve uma medida protetiva contra Medina. Não bastasse o episódio da agressão, o próprio Marçal fez ataques pesados a Nunes durante a campanha e chegou a ser expulso de um debate após ter dito que iria prender o prefeito.

