Lula e Flávio Bolsonaro tentam inflamar suas bases antes da disputa pelo eleitor de centro

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) começaram a campanha recorrendo a uma aposta parecida. Os dois principais candidatos à Presidência nas eleições 2026 escolheram seus berços políticos para os primeiros atos oficiais, em eventos marcados pelo tom emocional e pela reafirmação de suas identidades políticas. Lula voltou à Vila Euclides, onde emergiu para a política. Flávio foi a Copacabana, um dos principais palcos do bolsonarismo. Antes de buscar votos novos, os dois decidiram acordar suas próprias torcidas.

Em São Bernardo do Campo, o tom foi de reconstrução do mito de Lula. O estádio onde comandou as greves dos metalúrgicos recebeu vídeos históricos, antigos companheiros e uma sucessão de referências à trajetória do presidente. A primeira-dama Janja da Silva comandou um momento dedicado às mulheres e, para surpresa geral, lembrou Marisa Letícia, mulher de Lula morta em 2017 e responsável por costurar a primeira bandeira do PT. Diante de uma plateia quase toda vermelha, o presidente convocou a militância a fazer campanha e, principalmente, a comparar seus governos com o de Jair Bolsonaro.

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Lula passou por emprego, renda, inflação e contas públicas, mas apresentou pouco de novo. Preferiu usar realizações do passado para argumentar que elas também representaram, em seu tempo, uma visão de futuro — do Bolsa Família aos institutos federais, da expansão das universidades à transposição do São Francisco. O Lula 4 apareceu de maneira mais concreta em três frentes: a criação do Ministério da Segurança Pública, a ampliação do ensino integral e o desenvolvimento de uma cadeia brasileira para explorar e processar minerais críticos e terras raras.

Era, em boa medida, o que a campanha pretendia. A Vila Euclides foi escolhida menos para lançar novidades do que para lembrar à militância quem é Lula e por que ela deve voltar às ruas por ele. O público foi grande e produziu a imagem de estádio cheio buscada pelo PT, embora parecesse inferior aos 40 mil anunciados oficialmente pelo partido. Mesmo assim, algo na casa dos 20 mil a 25 mil, uma estimativa mais factível, já configura uma largada bem-sucedida em termos de mobilização.

Os próximos movimentos ajudam a explicar outra aposta da campanha. Com atos previstos em Belo Horizonte e no Rio, Lula sinaliza atenção especial ao Sudeste, que pode ser um dos campos decisivos da eleição. A Quaest mais recente mostra Lula e Flávio empatados na região, enquanto o presidente conserva ampla vantagem no Nordeste e o senador se sai melhor no Sul. Manter um desempenho competitivo no Sudeste, melhor do que o obtido pelo PT em boa parte da região em 2022, será fundamental para a tentativa de reeleição.

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Em nome do pai

Flávio fez movimento semelhante no Rio, mas com um personagem ausente dominando o palco: o pai, Jair Bolsonaro. A ligação com o pai permeou o ato. O próprio Flávio subiu ao palanque de colete à prova de balas, repetindo uma imagem usada por Jair em campanhas e manifestações.

Nesta segunda-feira ( 17/8), ele dará mais um passo nessa reconstrução simbólica ao fazer uma motociata em Juiz de Fora, cidade onde o pai levou a facada durante a vitoriosa campanha de 2018. Se Lula voltou ao lugar onde sua história política começou, Flávio escolheu revisitar um dos episódios que ajudaram a construir o mito político que tenta herdar.

O discurso, como esperado, foi de fortes críticas ao governo e ao PT, concentrado em segurança pública, corrupção e custo de vida. Recorreu às suspeitas envolvendo Lulinha, filho do presidente, no escândalo do INSS. A “picanha” prometida por Lula em 2022 também voltou à cena, numa tentativa de explorar o desconforto com os preços. Na segurança, Flávio tentou disputar até o conceito de soberania, questionando se ela existe para quem vive em áreas dominadas pelo crime organizado. Prometeu tratar facções como organizações terroristas e mostrou alinhamento com os Estados Unidos, enquanto bandeiras americanas se misturavam às brasileiras no ato.

O Supremo e Alexandre de Moraes, alvos preferenciais do bolsonarismo, tiveram menos protagonismo do que em outros atos do grupo. Mas Flávio lembrou que o próximo presidente poderá ter uma oportunidade rara de redesenhar parte da Corte. Além das aposentadorias previstas de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes, permanece aberta a vaga deixada por Luís Roberto Barroso depois da rejeição de Jorge Messias pelo Senado. A conta pode chegar a quatro indicações caso Lula não consiga preencher a cadeira de Barroso antes do fim do mandato.
A eleição começa com Lula e Flávio muito à frente dos demais candidatos e com fortes chances, pelas pesquisas atuais, de reencontro no segundo turno.

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Lula terá de convencer quem não é petista de que sua longa trajetória não significa falta de futuro. Flávio terá de provar que consegue empolgar o bolsonarismo tanto quanto o pai, sem assustar o eleitor mais moderado de que precisará para destronar o rival.

No primeiro ato de campanha, os dois foram às origens para ganhar impulso. A eleição, porém, será decidida fora dessa zona de conforto.