Lula articula ‘tropa de elite’ do PT para disputar o Senado

Preocupado com os ânimos de setores do PT que, diante da cada vez mais iminente polarização do cenário nacional, enxergam boas chances de vitória na disputa por governos estaduais, o presidente Lula decidiu sinalizar ao partido que a prioridade nos estados segue sendo o fortalecimento das bancadas no Congresso. A avaliação ganha peso especialmente neste momento em que o Supremo Tribunal Federal (STF) está sob ataque de forças de centro-direita.

Como mostrou o JOTA no início deste mês, a cada vez mais provável candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a presidente revitalizou a polarização entre Lula e a família do ex-presidente Jair Bolsonaro e entusiasmou diretórios estaduais do PT a construírem candidaturas próprias aos governos, deixando de lado possíveis acordos com aliados da centro-esquerda e do Centrão e empurrando quadros petistas com boas chances legislativas para disputa do Executivo.

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Para “dar o exemplo” da importância de eleger uma bancada forte —uma verdadeira “tropa de elite do PT”, como define um desses estrategistas— Lula determinou que a ministra Gleisi Hoffmann (PT), da Secretaria de Relações Institucionais, seja candidata ao Senado pelo Paraná, abrindo mão de uma reeleição praticamente garantida à Câmara em favor de uma disputa considerada de alto risco. Com o gesto, o presidente não apenas reforça a prioridade legislativa como também sinaliza a necessidade de evitar que a direita faça maioria na Casa Alta.

Em outro movimento importante, Lula intercedeu para que Décio Lima, presidente nacional do Sebrae, cargo que assumiu em 2023 por articulação direta e indicação de confiança do presidente Lula, fosse retirado da lista de pré-candidatos ao governo de Santa Catarina para concorrer ao Senado. Em Minas Gerais, o presidente tem buscado uma alternativa que preserva a candidatura de Marília Campos (PT), prefeita de Contagem (MG), para a Casa Alta.

No maior colégio eleitoral do país, São Paulo, Lula fez circular a informação de que “estrelas” como Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSB), Simone Tebet (MDB) e Marina Silva (Rede) devem estar disponíveis para a missão eleitoral que também inclui o Senado. No Rio de Janeiro, na conversa recente que teve com o prefeito Eduardo Paes (PSD), pré-candidato ao governo, o presidente disse que o PT não abrirá mão de ter a ex-governadora e ex-senadora Benedita da Silva (PT) como nome para o Senado e pediu “apoio total” à candidatura dela, após a vaga ter sido praticamente oferecida a outros partidos que deverão compor o mesmo palanque.

No Rio Grande do Sul, Lula entrou diretamente na articulação que levou à retirada da pré-candidatura à reeleição de Paulo Paim (PT) em favor de seu ex-ministro Paulo Pimenta (PT), considerado pelo presidente com mais chances de vitória. Ao chamar para si esse tipo de negociação —algo que ainda não fez em relação às disputas pelos governos estaduais—, Lula deixa claro que, além da própria reeleição, seu foco está no Senado.

Nos cálculos da direção nacional do PT, Lula, uma vez reeleito, só terá alguma tranquilidade se tiver apoio de, ao menos, 45 dos 81 senadores. Neste ano, 54 cadeiras estarão em disputa. Em privado, o partido avalia que será necessário eleger entre 25 e 30 senadores para formar uma base governista sólida a partir de 2027.

Temor de uma maioria hostil ao STF

Outra preocupação do Planalto diz respeito à possibilidade de abertura de processos de impeachment contra ministros do STF, acossado pelo caso Master. Conforme a legislação, compete ao presidente do Senado a decisão inicial de admitir ou arquivar um pedido de impeachment contra um magistrado da Corte.

Caso a atual oposição vença de lavada a eleição para a Casa Alta nos estados, ela terá grandes chances de eleger o presidente do Senado. Os petistas avaliam que a abertura de um processo de impeachment contra um ministro do Supremo pode mergulhar o país em uma crise política logo no início de um eventual quarto mandato de Lula.

Portanto, além de um número elevado de aliados, o presidente gostaria de ver no Senado, a partir de 2027, petistas de expressão nacional, experientes, “casca grossa” e com lealdade total ao Planalto. Por esse motivo, nos acordos com aliados, além dos nomes já citados, Lula tem dado prioridade, por exemplo, às candidaturas da governadora Fátima Bezerra (PT), no Rio Grande do Norte; do ex-ministro Humberto Costa (PT), em Pernambuco; e do ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), na Bahia —onde o senador Jaques Wagner (PT) planeja tentar a reeleição. A ideia é formar um time de petistas capaz de defender os interesses do presidente e evitar que a Casa Alta se transforme em um ambiente de crise constante.

Em conversas reservadas, o presidente da República já chegou a dizer que a falta, no Senado, dos petistas Camilo Santana (CE), Wellington Dias (PT) e de Flávio Dino, eleito senador pelo PSB-MA, foi sentida pelo governo na atual legislatura. Os dois primeiros ocupam ministérios do presidente e Dino está no STF. Portanto, quem se candidatar a senador ou senadora buscando estar na Esplanada em um eventual quarto mandato de Lula, deve estar ciente de que poderá permanecer no Legislativo a partir de 2027.

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