Lula abraça redução da maioridade penal, mas deixa de capitalizar fim da escala 6×1 no JN

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começou bem a entrevista ao Jornal Nacional, nesta quinta-feira (15/10). Aparentando tranquilidade e domínio dos assuntos, assumiu pessoalmente a responsabilidade pelas dificuldades de seu governo e pelo resultado do primeiro turno. No desenrolar da sabatina, porém, mostrou irritação, perdeu desenvoltura e se atrapalhou em respostas sobre temas importantes, sobretudo em economia.

Lula também perdeu uma oportunidade de colher os louros da aprovação, na véspera, da PEC que acabou com a escala de trabalho 6×1. Embora não tenha sido questionado sobre o assunto, deixou de recorrer a uma das técnicas mais tradicionais da política, a de não se pautar de maneira literal pelas perguntas e conduzir as respostas para os temas que deseja destacar. Assim, perdeu a oportunidade de trazer para a conversa uma das principais bandeiras de sua campanha, limitando-se a uma breve referência ao tema nas considerações finais.

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A aprovação da PEC no Senado, por 75 votos a 1, a apenas 11 dias do segundo turno das eleições 2026, tem uma dimensão que extrapola a disputa eleitoral. Trata-se de uma antiga bandeira do PT, que pode se tornar a marca histórica que sempre faltou ao terceiro mandato de Lula. A redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem corte de salários, representa uma mudança profunda na legislação trabalhista, com efeitos muito além do domingo de votação.

Em contrapartida, Lula fez uma declaração de grande repercussão política ao defender, pela primeira vez, de forma explícita, a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em crimes hediondos. A posição contraria uma bandeira do PT e do próprio Lula, dando respaldo à iniciativa do senador Camilo Santana (PT-CE), coordenador de sua campanha, que tentou incluir o tema na discussão da PEC da Segurança Pública. Lula, porém, defendeu que as duas propostas fossem discutidas separadamente, para não comprometer a aprovação da PEC.

Na entrevista, o presidente procurou demonstrar disposição para reconhecer falhas, rever posições e corrigir rumos. Fez declarações importantes sobre segurança pública e a crise no Supremo Tribunal Federal (STF). Mas também expôs dificuldades para responder a questões concretas que afetam a vida da população, como o endividamento das famílias, o custo do crédito e a situação das contas públicas. E se enrolou ao dizer que não sabia que o Bolsa Família, reajustado a poucos dias do primeiro turno, esteve congelado durante todo o seu mandato.

Veja abaixo os principais pontos da entrevista.

Impopularidade do governo

Lula assumiu a culpa pelas dificuldades políticas e pela incapacidade de comunicar as realizações do governo. Em diferentes momentos, voltou a dizer que herdou um país destruído e precisou reconstruí-lo. Admitiu que não conseguiu convencer a população de que fez um bom governo, sem reconhecer na mesma medida possíveis erros nas próprias escolhas.

Redução da maioridade penal

Lula surpreendeu ao defender a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em crimes hediondos, contrariando uma posição histórica do PT. A declaração ocorreu no mesmo dia em que o senador Camilo Santana (PT-CE), coordenador de sua campanha, tentou levar o assunto à discussão da PEC da Segurança Pública, enfrentando resistência da bancada petista. Lula, porém, afirmou que os dois assuntos devem ser tratados separadamente, para não comprometer a aprovação da PEC.

Segurança pública

Lula prometeu maior participação do governo federal no combate ao crime organizado, com a criação do Ministério da Segurança Pública, financiamento de 138 presídios e ações para asfixiar financeiramente as facções. Mas teve dificuldade para detalhar o que pretende fazer para melhorar a segurança cotidiana da população. Sobre a pressão americana para classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, voltou a rejeitar a equiparação entre as facções brasileiras e organizações terroristas internacionais.

Crise no Supremo

Ele reconheceu a gravidade do escândalo do Banco Master e defendeu mudanças profundas no Judiciário. Falou em discutir mandatos para ministros, critérios de indicação e restrições a conflitos de interesses, como a atuação de escritórios de advocacia ligados a integrantes do tribunal.

“Essa discussão é irreversível. É muito grave”, afirmou. Ao mesmo tempo, passou a impressão de que tentava proteger Alexandre de Moraes da ofensiva bolsonarista, atribuindo parte dos pedidos de impeachment à reação contra a prisão de Jair Bolsonaro. E colocou os desafetos Nunes Marques, André Mendonça e Dias Toffoli na conversa, afirmando que eles também estão envolvidos no escândalo do Master. O presidente buscou marcar distância dos problemas do Supremo sem endossar integralmente os argumentos de seus adversários.

Polícia Federal e caso Master

Lula revelou ter advertido pessoalmente o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, pela viagem a Londres relacionada às controvérsias do caso Master. Disse não ter considerado convincentes suas explicações, embora tenha elogiado o trabalho do delegado. Também defendeu Ricardo Lewandowski, que atuou como consultor do Master antes de assumir o Ministério da Justiça, afirmando não caber ao presidente impedir que alguém trabalhe na iniciativa privada. As respostas mostraram os limites do distanciamento que Lula procura estabelecer em relação aos personagens atingidos pelo escândalo.

Bolsa Família

Uma das explicações mais frágeis da entrevista ocorreu quando Lula foi questionado sobre o reajuste do Bolsa Família apenas 17 dias antes do primeiro turno. Disse que considerava impensável um governo seu deixar de corrigir o benefício pela inflação, mas alegou desconhecer que o benefício não havia sido reajustado nenhuma vez em seu terceiro mandato. A resposta parece muito pouco plausível e, no mínimo, suscita dúvidas sobre o controle presidencial de uma das principais políticas sociais do governo. O reajuste, concedido em plena campanha eleitoral, também alimenta questionamentos sobre o momento escolhido para a medida.

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Economia e dívida pública

Lula teve dificuldades para explicar como pretende lidar com a trajetória de crescimento da dívida pública e o nível elevado dos juros. Rejeitou a ideia de que cortes de gastos sejam o caminho para reduzir as taxas e defendeu o crescimento econômico como instrumento de ajuste fiscal.

“Muito dinheiro na mão de poucos é pobreza, pouco dinheiro na mão de muitos é riqueza”, afirmou. A resposta reafirma uma convicção antiga do presidente, mas não esclarece como pretende estabilizar a dívida sem medidas adicionais de controle das despesas ou aumento das receitas. Mas foi bem ao dizer que no seu governo o ajuste não será feito em cima do pobre e ao lembrar que seu adversário, Flávio Bolsonaro, não se compromete com aumento do salário mínimo acima da inflação.

Endividamento das famílias

Questionado sobre o número de brasileiros que precisam recorrer a empréstimos ou à poupança para fechar as contas, Lula citou o Desenrola 3 e medidas de perdão de dívidas para microempreendedores. Mas não apresentou uma resposta mais ampla para o problema da renda insuficiente e do crédito caro, dois fatores de desgaste do governo que a campanha de Flávio Bolsonaro procura explorar.

Relação com os Estados Unidos. Lula evitou o confronto com Donald Trump. Classificou a relação entre os dois governos como civilizada, mencionou negociações comerciais em andamento e afirmou acreditar na possibilidade de um acordo. Também disse que não deseja recorrer à reciprocidade tarifária. Foi uma resposta mais pragmática que confrontacional, mesmo diante do apoio político de Trump a Flávio Bolsonaro.