Flávio se esquiva de crises e capitaliza sentimento de mudança, que dificulta virada de Lula no 2º turno

A eleição deste domingo (4/10) mostrou que havia no país um forte desejo de mudança que a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não conseguiu perceber — maior, inclusive, do que as pesquisas foram capazes de medir. Carregando a herança dos votos do pai e falando o que o eleitor queria ouvir, Flávio Bolsonaro (PL) conseguiu transformar em voto esse ambiente difuso de insatisfação com establishment lotado em Brasília.

De modo surpreendente, terminou o primeiro turno à frente de Lula, com cerca de 47% dos votos válidos contra pouco menos de 45% do presidente, superando o desempenho indicado pela maior parte das pesquisas às vésperas da votação. Esse patamar torna praticamente impossível uma virada de Lula no segundo turno — feito que seria inédito nas eleições brasileiras desde a redemocratização.

A força vinha de muitos lugares ao mesmo tempo. Da crise no Supremo Tribunal Federal (STF), do desgaste com a corrupção, dos preços altos, do endividamento das famílias, da preocupação com a violência e de um antipetismo que segue muito vivo. Flávio não deu uma resposta para cada um desses problemas. Bastou conseguir se apresentar como o candidato contra quase tudo o que parte relevante do eleitorado passou a rejeitar. Custo de vida, corrupção e segurança pública estiveram entre as preocupações que atravessaram a campanha.

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Alexandre de Moraes

Nesse ambiente, é difícil encontrar episódio mais disruptivo do que a crise aberta no Supremo a partir do caso Daniel Vorcaro. A divulgação do relatório da Polícia Federal sob a relatoria de André Mendonça atingiu Alexandre de Moraes, personagem que durante anos ocupou o centro do confronto entre o STF e o bolsonarismo, e devolveu força a uma bandeira da direita que havia perdido fôlego: o impeachment de ministros da Corte. Moraes contestou as acusações e a maneira como o material veio a público, mas, do ponto de vista político, o caso já havia mudado de dimensão. A crise entre os ministros passou a ocupar o centro da campanha.

O eleitor assistiu, mesmo que às vezes sem conseguir compreender exatamente o que estava acontecendo, a uma escalada de conflitos dentro da mais alta Corte do país. A insegurança institucional produzida por esse embate chegou ao último ato da campanha. O debate da TV Globo, tradicionalmente o mais importante do primeiro turno, foi cancelado depois de uma sucessão de decisões de ministros do TSE e do STF que alteraram, horas antes de sua realização, regras previamente acertadas com os partidos. A própria emissora justificou o cancelamento pela insegurança jurídica criada pelas decisões.

Foi uma imagem poderosa do momento político. O país chegou à véspera da votação sem conseguir assistir ao principal confronto entre seus candidatos e em meio a uma guerra aberta no Judiciário. O desejo de mudança que apareceu nas urnas não se dirigia, portanto, apenas ao governo. Havia também uma insatisfação com o funcionamento de Brasília e, particularmente, com o protagonismo adquirido pelo Supremo na vida política.

Flávio soube capitalizar isso. O tal “voto útil” que ele vinha pregando nos últimos dias, num movimento de desidratar os demais adversários da direita, foi reformulado para incorporar o sentimento anti-establishment e se tornou: “voto de protesto”. O senador repetiu à exaustão o termo nos últimos dias. 

Desgaste de Lula

Para Lula, o problema era maior porque a crise institucional se somava a dificuldades muito mais concretas. Aos 80 anos e em sua sétima disputa pela Presidência, o petista enfrentava o desgaste natural de quem já governou o país por muitos anos e precisava convencer o eleitor de que ainda representava uma resposta para o futuro. Ao mesmo tempo, havia uma sensação persistente de que a vida continuava difícil. A melhora de alguns indicadores econômicos não eliminou a percepção provocada pelos preços altos, pelo endividamento e pela insegurança.

A campanha recebeu sinais desse problema ao longo das últimas semanas, mas nem sempre encontrou a linguagem adequada para enfrentá-lo. Lula falou muito de sua biografia, do que seus governos fizeram e de grandes embates institucionais. Flávio, com frequência, escolheu uma comunicação mais elementar. Enquanto o presidente tentava mostrar resultados econômicos, o adversário entrava num supermercado com uma nota de R$ 100 e mostrava diante das câmeras quanto ela conseguia colocar no carrinho. Para um eleitor incomodado com o preço da comida, a cena dispensava uma tabela de inflação.

A segurança pública talvez tenha sido o exemplo mais claro dessa diferença. Lula apostou na PEC da Segurança Pública e passou a defender que, depois de aprovada a mudança constitucional, o governo poderia criar um ministério específico para a área. É uma resposta que depende de explicar desenho institucional, atribuições dos entes da Federação e mudanças constitucionais. Flávio falava em reduzir a maioridade penal, endurecer penas e enquadrar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. As propostas podem ser discutidas quanto à eficácia e às consequências, mas cabiam numa frase e eram imediatamente compreensíveis.

Flávio chegou a disputar com Lula uma das palavras escolhidas pelo presidente para definir a eleição. O petista falava em soberania para confrontar as pressões do governo Donald Trump sobre o Brasil. Flávio procurou trazer o conceito para o cotidiano. Soberania, dizia, era o cidadão poder ficar com seu celular, seu carro e sua casa e viver em um território no qual quem manda é o Estado, e não uma facção. Era a diferença entre uma discussão de política externa e outra que procurava chegar diretamente à experiência de quem tem medo de ser assaltado na rua.

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Flávio navegou sem ser questionado

Nada disso permite atribuir o resultado a um único fator ou afirmar que cada uma dessas propostas transferiu votos diretamente para Flávio. O que as urnas permitem enxergar é uma convergência. O candidato do PL conseguiu juntar numa mesma candidatura o antipetismo, a rejeição ao Supremo, o incômodo com a corrupção e a sensação de que o dinheiro rende pouco, a vida está difícil e a rua está insegura. 

E, diante de um noticiário dragado pelas crises envolvendo a Corte, a Polícia Federal e o mundo político, a discussão sobre as propostas dos candidatos ficou ao largo. Flávio pôde navegar sem ser questionado sobre o que poderia expô-lo ou arrastar para ele a rejeição de seu pai.

Lula chegou ao primeiro turno tentando convencer o país de que havia razões para preservar o caminho dos últimos quatro anos. Flávio chegou dizendo, de maneiras diferentes, que Brasília e o país precisavam mudar. Neste domingo, ficou evidente que havia mais gente disposta a ouvir essa mensagem do que o governo, a campanha petista e boa parte das pesquisas conseguiram enxergar.