Novato numa disputa nacional, o senador Flávio Bolsonaro (PL) teve seu primeiro teste de grande audiência em entrevista no Jornal Nacional na noite desta sexta-feira (28/8). O presidenciável do PL sobreviveu ao encontro, considerando as derrapadas e polêmicas que poderiam ter acontecido, sobretudo nos 30 minutos de questionamentos mais duros sobre crises e escândalos.
Flávio se manteve resiliente na entrevista da mesma forma como tem ocorrido nas pesquisas, mesmo em semanas de más notícias. Não teve nenhum momento excepcional, mas conseguiu evitar o histórico do pai de grosserias e arroubos nas aparições no telejornal. Quando apertado, optou por sair pela tangente. Antes do programa, um aliado próximo disse que a tônica ali era “menos é mais”.
Flávio disse, em 19 de maio, que apresentaria as planilhas dos pagamentos do filme Dark Horse, o que até hoje não só não aconteceu, como não acontecerá. Questionado pelos jornalistas, escapou das explicações. Repetiu o que tem dito: a relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro era restrita à produção do filme do seu pai e mais nada.
“Quem deve esclarecimentos é o Lula”, disse ainda, se referindo ao encontro do presidente com o então dono do Banco Master no Palácio do Planalto. Esclarecimento dele próprio, não teve. Se limitou a dizer que a relação dele com Vorcaro era privada e que não houve qualquer contrapartida de sua parte.
Em outra frente, Flávio também se esquivou. Fugiu de qualquer detalhamento de proposta sobre economia ou de como pretende fazer o ajuste fiscal. Ele disse ainda que não fará “economia com o povo sofrido”, quando questionado se concederá reajuste real ao salário mínimo. A conta não fecha.
Repetiu velhas fórmulas de Paulo Guedes, como cortar cargos comissionados e revogar atos administrativos, mas não disse onde fará o tal tesouraço. Um dos melhores momentos do candidato foi ao apontar o aumento na dívida pública e falar sobre como altas taxas de juros afetam a audiência endividada – Flávio passou a maior parte do programa olhando para a câmera, não para os apresentadores.
Havia uma expectativa de que ele pudesse anunciar um eventual ministro da Fazenda durante a entrevista, como ele próprio indicou em live na véspera. Como o senador passou os últimos dias em encontros com a Faria Lima, cresceram especulações sobre nomes como Marcelo Kayath, ex-Credit Suisse.
Mas não foi desta vez. Anunciou, contudo, o presidente do Conselho do Hospital Albert Einstein, Claudio Lottenberg, para um eventual Ministério da Saúde. Não é uma Fazenda, mas é o primeiro nome de primeiro escalão que anuncia.
Descompasso
O momento de maior descompasso do candidato ocorreu quando, questionado sobre medidas para o meio ambiente, defendeu saneamento básico e investimentos em saúde. Demonstrou desconhecimento da pauta.
Para Flávio, era importante usar o espaço do Jornal Nacional para tentar se apresentar como mudança. Palavra, de forma pouco original, escrita na sua mão, assim como Jair Bolsonaro fizera no passado. A entrevista seguiu essa toada: ele defendeu o pai das acusações de golpe e o irmão pelo tarifaço. Neste ponto, não tergiversou.
A mudança escrita na mão, ainda não conseguiu apresentar publicamente. Mas encarou a maior audiência de sua carreira política até aqui sem sobressaltos que coloquem a campanha sob risco, o maior temor que seus aliados demonstravam antes de a entrevista começar.

