A poucos dias do primeiro turno das eleições, a campanha do presidente Lula (PT) finalmente achou uma bandeira popular para chamar de sua após o abandono da pauta do fim da escala 6×1. Essa era a principal aposta do governo até poucas semanas atrás quando o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), decidiu deixar a discussão do projeto apenas para depois do pleito, o que diminuirá consideravelmente a pressão sobre os senadores para aprovarem a PEC.
Se foi uma carta na manga pensada estrategicamente para este momento de “sprint” (reta final) da campanha ou uma ideia que surgiu durante a dinâmica dos acontecimentos, não se sabe, mas a Medida Provisória do fim das bets pode ser a proposta que faltava a Lula para empolgar eleitores ainda indecisos e talvez até reverter alguns votos entre bolsonaristas.
Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada na última quarta-feira (23) mostra que 75% dos entrevistados são a favor da proibição das bets. No mesmo levantamento, quando questionados se acham que as apostas online trazem mais benefícios ou prejuízos à sociedade, 59,9% dos entrevistados disseram “somente prejuízos”, enquanto 28,6% “mais prejuízos”, totalizando 88,5% de indivíduos que dizem ver as bets como algo negativo.
Outro estudo da empresa de inteligência e análise do ambiente digital Palver revela que 80% das menções em grupos públicos de WhatsApp e Telegram são favoráveis ao fim das bets, com o apoio inclusive de bolsonaristas.
Foi criada, portanto, uma oportunidade para Lula atrair parte do eleitorado evangélico, grupo em que o presidente possui dificuldade de inserção e que rejeita as apostas, principalmente o feminino. A avaliação da campanha petista é que cada indivíduo viciado em apostas causa o sofrimento do seu núcleo familiar de convivência mais próximo e a medida serviria para conquistar esses potenciais novos eleitores.
Porém, mais do que isso, a MP das Bets representa um raro momento propositivo em meio a uma campanha eleitoral marcada pela despolitização. Ela também é um contraponto ao tom geral da campanha petista baseada no medo do retorno do bolsonarismo à Presidência. Embora de fato existam muitas razões para temer a volta da extrema direita ao poder, a aposta no medo, que inibe a razão e a capacidade de vislumbrar novas possibilidades, é uma atitude normalmente utilizada pela extrema direita e cabe à esquerda agir no sentido oposto, resgatando a esperança como sentimento mobilizador da sociedade.
Discuti em artigo anterior que se Lula quisesse mudar os rumos dos acontecimentos, que até então estavam favorecendo Flávio Bolsonaro (PL), deveria investir em propostas que atacassem as bases do sistema político-econômico neoliberal apontando para a transformação das estruturas da sociedade brasileira em um eventual último mandato e para a resolução de problemas históricos do país. Porém, embora o fim das bets não represente algo que modifique as bases do sistema neoliberal, é algo que dialoga diretamente com problemas concretos do presente e ataca uma das principais dores dos brasileiros atualmente, o endividamento recorde das famílias.
Segundo a terceira edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, apenas em 2025 as apostas online provocaram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias. Para os autores do estudo, essa transferência de recursos ajuda a explicar por que o consumo das famílias tem crescido em ritmo menor que o esperado, mesmo com o mercado de trabalho aquecido e a renda em alta.
De quebra, Lula ainda joga no colo do Legislativo, dominado pela direita e por interesses fisiológicos antagônicos aos da maioria da sociedade brasileira, a responsabilidade por uma eventual recusa em proibir as bets, já que boa parte do Congresso está sujeita ao lobby das empresas de apostas, mas não pode abertamente se mostrar contra uma pauta que possui amplo apoio popular.
Fato é que a campanha de Flávio Bolsonaro sentiu a decisão de Lula. Ao falar da medida do presidente, o candidato do PL classificou-a de “estelionato eleitoral” e tentou mais uma vez colar em Lula a imagem de “pai do Tigrinho”.
Durante a sua campanha, o “irmão” de Daniel Vorcaro, mentiroso contumaz que já mentiu pelo menos 43 vezes sobre suas relações com o ex-dono do Banco Master, segundo levantamento do site Aos Fatos, tem buscado atribuir a Lula de maneira enganosa o “fato” de que o presidente teria sido o responsável pela liberação das bets no Brasil.
No entanto, as apostas online foram liberadas no país através da Lei 13.756/2018, sancionada ao final do governo de Michel Temer (MDB), e foi durante o governo do seu pai, Jair Bolsonaro (PL), que elas se expandiram sem regulamentação, embora a legislação de 2018 previsse que elas deveriam ter sido regulamentadas em um prazo máximo de quatro anos, que se encerrou em 2022.
Também na última sexta-feira (25) o governo anunciou um novo programa de renegociação de dívidas de inadimplentes (o “Desenrola 3”) que autoriza o Tesouro Nacional a adquirir diretamente débitos atrasados de pessoas físicas com descontos que chegam a 90%. Além disso, no dia anterior o Ministério da Saúde formalizou um pedido de incorporação das chamadas “canetas emagrecedoras” ao SUS, outra ação que pode render dividendos eleitorais diante do crescimento da obesidade no país, que passou de 11,8% da população atingida, em 2006, a 25,7% em 2024.
Outro fato que abalou a candidatura de Flávio Bolsonaro foi a discussão surgida na última quinta-feira (24) em torno da possibilidade de retirada de Nossa Senhora Aparecida da posição de padroeira do Brasil. Dados do Instituto Democracia em Xeque mostram que o episódio alcançou o terceiro maior volume de menções deste ano, atrás de “Mendonça vs. Moraes” e “Quebra de sigilo Dark Horse”, na série comparativa de 12 meses. Foram registradas 977,6 mil menções ao caso em 55 horas e ao menos 8,5 milhões de interações no período analisado.
A questão, que inclusive foi objeto de análise nesta coluna em um texto de Vinícius Rodrigues Vieira, demonstra a força de mobilização de setores católicos no meio digital. Embora Flávio Bolsonaro negue que possa atender às reivindicações de setores evangélicos de retirar o status de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida, o assunto segue em pauta em função da desastrada reação do candidato, que culpou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pela difusão da suposta fake news.
A junção desse acontecimento ao recente “pacote de bondades” do governo, que reúne, além do fim das bets, o novo Desenrola e o pedido de incorporação das canetas antiobesidade ao SUS, pode ter dado vida nova à campanha de Lula, favorecendo o presidente nesta reta final de campanha.
Provavelmente teremos nesta última semana pesquisas que revelem se esses fatos políticos geraram alguma mudança nas intenções de voto. Boa parte da militância petista ainda acredita em uma vitória no primeiro turno, embora esta seja improvável.
Por enquanto, o que se pode afirmar é que o resultado da eleição permanece em aberto e serão os próximos dias que determinarão o êxito das iniciativas recentes tomadas pelo governo, sendo sempre necessário levar em consideração o imprevisível, como a disseminação de boatos e fake news que costumam surgir nesse período eleitoral final.

