Quando se fala em competitividade e produtividade, é comum que o debate se concentre em inovação, tecnologia e eficiência operacional. No entanto, existe um fator frequentemente negligenciado nessa equação: a saúde e a segurança dos trabalhadores.
Em um país que registrou mais de 700 mil acidentes de trabalho no levantamento oficial mais recente do Ministério do Trabalho e Emprego, a gestão dos riscos ocupacionais impacta diretamente pessoas, empresas e a própria competitividade nacional.
O tema ganha ainda mais relevância diante do avanço do mercado ilegal. Segundo levantamento do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), as perdas provocadas por contrabando, falsificação e pirataria ultrapassaram R$ 473 bilhões em 2025, sendo R$ 326,3 bilhões em prejuízos para a indústria e R$ 146,8 bilhões em perdas de arrecadação tributária. Em setores ligados à saúde e à segurança do trabalho, esse problema assume uma dimensão ainda mais crítica: produtos falsificados podem colocar vidas em risco.
No caso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), o desafio vai além da simples disponibilidade do equipamento. Muitas vezes, o risco está na falsa sensação de proteção criada por produtos sem certificação, de procedência duvidosa ou utilizados de forma inadequada. Quando trabalhadores e empresas acreditam estar protegidos, mas continuam expostos aos riscos, o problema se torna ainda mais difícil de identificar.
A proteção respiratória é um dos exemplos mais claros dessa realidade. Em diversos ambientes industriais, trabalhadores convivem diariamente com poeiras minerais, fumos metálicos, gases e vapores que podem causar danos à saúde ao longo do tempo. Entre as principais doenças relacionadas a essas exposições estão a asma ocupacional, a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) e a silicose, considerada uma das mais importantes doenças pulmonares ocupacionais do país.
A dimensão do problema é significativa. Estima-se que cerca de 6,6 milhões de trabalhadores brasileiros estejam expostos à sílica cristalina respirável, principal agente associado à silicose. Entre 2020 e 2024, foram registradas mais de 6,4 mil notificações de pneumoconioses no país, reforçando que as doenças respiratórias ocupacionais continuam representando um importante desafio de saúde pública e gestão empresarial.
Os riscos associados aos produtos falsificados também já foram demonstrados em estudos técnicos. Avaliações conduzidas pelo estadunidente National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH) identificaram falhas generalizadas em filtros e cartuchos fraudulentos, evidenciando que equipamentos sem procedência comprovada podem comprometer completamente a proteção esperada.
Por esse motivo, a escolha de respiradores e sistemas de proteção respiratória não pode ser baseada apenas em preço ou disponibilidade. Trata-se de uma decisão técnica que deve considerar o tipo de contaminante presente no ambiente, o nível de exposição, a vedação adequada ao usuário, a compatibilidade com outros EPIs e a capacitação dos trabalhadores para o uso correto dos equipamentos.
Nesse processo, o Certificado de Aprovação (CA) desempenha papel fundamental. A consulta à validade da certificação, a verificação da procedência dos produtos e a compra por meio de canais autorizados são medidas simples que ajudam a reduzir o risco de utilização de equipamentos falsificados ou não conformes.
Ignorar esses critérios pode transformar uma aparente economia em prejuízos muito maiores. Acidentes, doenças ocupacionais, afastamentos, perda de produtividade, passivos trabalhistas e danos reputacionais representam custos significativos para empresas e para a sociedade. Segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), acidentes e doenças relacionados ao trabalho podem representar perdas equivalentes a cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.
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Cada vez mais, empresas com culturas de segurança maduras são reconhecidas não apenas por proteger seus trabalhadores, mas também por sua capacidade de reduzir interrupções operacionais, fortalecer sua reputação e demonstrar responsabilidade perante clientes, parceiros e investidores. Em um ambiente de negócios que valoriza práticas sustentáveis e boa governança, segurança deixou de ser apenas uma exigência regulatória para se tornar um diferencial competitivo.
A proteção respiratória, portanto, não deve ser tratada como um item de compra ou uma exigência burocrática. É uma decisão estratégica que impacta diretamente a saúde dos trabalhadores, a produtividade das empresas e a competitividade do país. Em um cenário marcado pelo crescimento do mercado ilegal e pelos elevados custos humanos e econômicos dos acidentes e doenças ocupacionais, investir em proteção adequada é investir no futuro dos negócios e das pessoas.

