O presidente do PT, Edinho Silva, afirmou que a campanha de Lula à reeleição iniciará ainda no primeiro turno esforço de “diálogo” para atrair partidos e lideranças que não integram formalmente a coligação presidencial. A declaração ocorre em momento no qual o presidente tem se aproximado de expoentes do Centrão, como Hugo Motta (Republicanos-PB) e David Alcolumbre (União-AP), presidentes da Câmara e do Senado, respectivamente.
Como o prazo para o registro das coligações já terminou, as conversas não poderão resultar na entrada formal de novos partidos na chapa. A estratégia será conquistar apoios informais, estimular a saída de dirigentes da neutralidade e aproximar grupos das legendas que estejam dispostos a se posicionar ao lado do que o PT classifica como “campo democrático”.
“Daqui para frente, a gente consegue trazer setores da sociedade para apoiar o presidente Lula e setores de partidos que querem ficar ao lado do campo democrático”, afirmou. Edinho disse que as conversas ocorrerão independentemente das posições tomadas pelas legendas durante a pré-campanha e terão como objetivo ampliar a frente contra o bolsonarismo.
Em 2022, a formação de “frente ampla” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PT) foi fundamental para a vitória de Lula. Neste ano, no entanto, o PT ainda não conseguiu romper a polarização no âmbito nacional.
As alianças estaduais deverão servir de ponte para essa aproximação. Edinho citou o PSD, que lançou candidatura própria à Presidência, mas está aliado ao PT em cinco estados. Segundo o dirigente, a legenda é o principal parceiro dos petistas nas disputas estaduais entre os partidos que estão fora da coligação nacional de Lula. MDB, PP e União Brasil também participam de arranjos regionais favoráveis ao presidente.
Nos últimos dias, Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e vice de Ronaldo Caiado, candidato a presidente do partido, tem questionado a “neutralidade” do Centrão e sinalizado que o grupo político está com Lula.
Programa de governo
Segundo Edinho, o programa de governo registrado pela candidatura do presidente Lula no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) será aprimorado durante a campanha. Segundo ele, o documento representa um “ponto inicial” e continuará sendo discutido até a apresentação pública dos principais compromissos do petista, ainda sem data definida.
“Nós vamos continuar dialogando sobre aqueles temas, os debates continuam existindo. Evidente que muita coisa lá vai ser aprimorada”, disse, em coletiva de imprensa a jornalistas em Brasília.
Entre as prioridades citadas por Edinho estão o combate ao crime organizado, com foco na asfixia financeira das organizações criminosas e na retomada de territórios, e um projeto de desenvolvimento baseado na exploração de minerais críticos e terras raras, com transferência de tecnologia.
Na campanha, o presidente também deverá enfatizar o equilíbrio fiscal, a requalificação do gasto público, a modernização do Estado, a transição energética, a educação integral, a redução das filas do SUS e o enfrentamento ao feminicídio.
Edinho disse ainda que o PT defenderá uma reforma política e eleitoral e mudanças no modelo de emendas impositivas. O presidente da sigla disse que os temas não são apresentados no plano de governo, uma vez que ultrapassam as atribuições do Executivo e dependem do Congresso. Ele afirmou, no entanto, que Lula tem cobrado que o PT assuma essa bandeira.
“Não dá para R$ 62 bilhões serem tirados do orçamento da forma como têm sido tirados, ou seja, esvaziando a capacidade do Executivo de destinar o orçamento. Agora, para que isso aconteça, nós precisamos de uma reforma primeiro”, declarou Edinho.
Trump e as eleições brasileiras
Edinho disse ainda que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenta interferir em processos eleitorais na América Latina. Segundo ele, o PT confia “muito mesmo” no presidente do TSE, ministro Nunes Marques, para impedir interferências externas e preservar a lisura das eleições.
O dirigente relacionou a preferência do governo norte-americano pela candidatura bolsonarista às divergências sobre big techs, Pix e minerais críticos. Também acusou os adversários de Lula de oferecerem as reservas brasileiras e informações sensíveis aos Estados Unidos.
Agenda do presidente
A campanha ainda não decidiu se Lula participará do debate da TV Band, marcado para o dia 23/8, nem definiu a quais entrevistas o presidente comparecerá. A coordenação deverá discutir o assunto com o candidato ao longo da semana.
Edinho afirmou que Lula recebeu mais de 35 convites para debates, entrevistas, palestras, reuniões e eventos. A participação de representantes da campanha nas reuniões preparatórias promovidas pelas emissoras não significa, segundo ele, que a presença do presidente esteja confirmada.
A agenda eleitoral será montada semanalmente, porque Lula continuará exercendo a Presidência. Edinho afirmou que a prioridade do candidato é governar e que não será possível fechar antecipadamente todo o calendário da campanha.
Por ora, o presidente tem reservado três dos cinco dias úteis às funções presidenciais. Os compromissos eleitorais previstos são para Minas Gerais, na sexta-feira (21/8), e Rio de Janeiro, no sábado (22/8). Segundo Edinho, há pedidos para que Lula visite os 26 estados e o Distrito Federal, mas a quantidade de convites impede a confirmação antecipada de todas as agendas.
Papel de Janja
A primeira-dama, Janja da Silva, participará da campanha com atuação concentrada na mobilização de mulheres e no debate sobre feminicídio e violência de gênero. Mesmo sem confirmar se Janja terá algum cargo formal, Edinho afirmou que ela já integra o “time da campanha”, tem viajado aos estados e participado de reuniões com representantes femininas dos partidos que compõem a coligação presidencial.
Segundo o presidente do PT, a primeira-dama deverá ajudar a organizar a participação das mulheres nos palanques estaduais e dar visibilidade às propostas da candidatura para o enfrentamento da violência. A campanha pretende tratar o tema como um dos eixos do programa de governo que será apresentado por Lula.
Janja deverá continuar percorrendo os estados durante o primeiro turno. O calendário de viagens e eventos será definido conforme as necessidades da campanha, dos palanques estaduais e a disposição da primeira-dama. Também é possível que ela tenha uma agenda própria, dividindo as visitas aos estados com o presidente Lula.
Lulinha e Marcola
Questionado sobre as denúncias envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, Edinho afirmou que o presidente Lula defende a apuração de todas as suspeitas e que ambos devem ter direito à ampla defesa.
Defendeu também que o governo tem dado liberdade às instituições responsáveis pelas apurações e afirmou que essa postura será mantida durante o período eleitoral.
“O presidente Lula quer que todas as denúncias sejam apuradas e que o povo brasileiro tenha conhecimento efetivamente do que aconteceu”, declarou. “É muito importante que os denunciados tenham direito de defesa e também possam apresentar sua versão dos fatos.”
Marcola, que fazia parte da equipe da campanha, foi substituído por Gilberto Carvalho, quadro histórico do PT e ex-ministro de Dilma Rousseff. Gilberto já dividia essa tarefa com ele e continuará como principal responsável pelo planejamento dos compromissos do presidente.
O dirigente da sigla também foi questionado sobre a produção de peças eleitorais com aliados citados ou associados a investigações, como o senador Weverton Rocha (PDT-MA), mencionado em apurações relacionadas ao INSS, e o ex-líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).
Na última semana, Lula realizou gravações com grande parte dos seus candidatos aliados, incluindo os dois. Segundo Edinho, a existência de uma investigação ou acusação, sem julgamento definitivo, não será suficiente para suspender automaticamente o apoio político.“Até que alguém seja julgado e considerado culpado, essa pessoa é inocente, como qualquer brasileiro”, disse.
Alianças
Nessas eleições, o PT reuniu sete partidos de esquerda e centro-esquerda e conseguiu ampliar seus acordos estaduais para além do conjunto formal de aliados.
O partido informou ter candidaturas próprias aos governos de 12 estados, além de candidaturas e alianças para o Senado em todas as unidades da federação. A legenda também montou chapas para a Câmara e para as assembleias legislativas em todo o país.
No Senado, serão 19 candidaturas do partido, com alianças com nove partidos em 18 estados.
Edinho reafirmou o apoio de Lula e do PT a João Campos (PSB) em Pernambuco e disse desconhecer eventual pedido da governadora Raquel Lyra (PSD) para que Lula evitasse atos em favor de Campos no estado. Acrescentou que a ampliação do apoio ao presidente para além da coligação formal é natural, mas não modifica o compromisso do PT com sua candidatura estadual.
Na Paraíba, Edinho reafirmou o apoio de Lula ao governador João Azevêdo (PSB) e ao senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB). Sobre Nabor Wanderley (Republicanos), afirmou que o presidente não fará manifestações contrárias à candidatura e que existe uma relação política “a ser construída”. Segundo o dirigente, Lula havia declarado seus apoios antes da entrada de Nabor na disputa.

