Cenário em SP aumenta peso eleitoral de Tarcísio na eleição presidencial

A grande possibilidade de a eleição para o governo de São Paulo ser decidida em primeiro turno aumenta ainda mais o cacife eleitoral de Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição. Em conversa com o JOTA, líderes das pré-campanhas de Lula (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL) afirmaram, reservadamente, que a atuação do governador, principalmente nos bastidores, onde as desconfianças são muitas, deverá ser determinante no resultado nacional. 

A chance de a eleição acabar em primeiro turno em São Paulo divide líderes e expoentes de diferentes campos da política paulista sobre os possíveis efeitos da concretização desse cenário, mas, todos eles têm um ponto em comum: a movimentação ou não de Tarcísio e seus aliados será fundamental na campanha presidencial.

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Em linhas gerais, engajar Tarcísio no objetivo de derrotar Lula no âmbito nacional passou a ser ainda mais estratégico para Flávio, enquanto aliados do presidente apostam que  o governador fará “corpo mole” de olho em 2030. Não por outro motivo, nos bastidores, aliados do senador lembram que ele já protocolou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) propondo o fim da reeleição presidencial. 

Dirigentes petistas, porém, afirmaram ao JOTA que Lula possui um “ativo” que nenhum outro presidenciável da oposição pode “garantir” a Tarcísio: se vencer em outubro próximo, o presidente estará impedido de concorrer à reeleição em 2030.

Assim, há na aliança de centro-esquerda formada em São Paulo entre o PSB e as federações PT-PV-PCdoB e PSOL-Rede quem não tenha medo da possibilidade, cada vez maior, de o presidente ficar sem palanque no maior colégio eleitoral do país, conforme mostrou a pesquisa Datafolha divulgada no domingo (5/7). De acordo com o instituto, Tarcísio tem 46% das intenções de voto no primeiro turno. Fernando Haddad (PT) está na segunda posição, com 30%. 

Conforme a legislação, um candidato deve ter 50% dos votos válidos mais um para vencer em primeiro turno. Segundo o Datafolha, o atual governador atinge 52%. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95%. A pesquisa foi registrada sob o número: SP-01703/2026.

Campo mobilizado e ‘corpo mole’

A esperança de parte da centro-esquerda paulista reside, basicamente, em duas hipóteses, sendo que uma delas não depende do PT nem de seus aliados, mas de Tarcísio. A primeira é de que o eleitor de Lula e a militância petista não se afastarão da disputa nacional mesmo se Haddad for derrotado em primeiro turno.

Em um eventual segundo turno, o presidente contará com um contingente mobilizado e ainda deverá herdar os votos dos eleitores mais à esquerda de Haddad. De acordo com o Datafolha, Vera Lúcia (PSTU), com 5%, Carlos Machado (PCB), com 4%, e Vivian Mendes (Unidade Popular), com 4%, estão empatados tecnicamente.

Em sentido oposto, os dirigentes da pré-campanha Haddad-Lula avaliam que o eleitor de Tarcísio se desmobilizará no segundo turno da disputa presidencial caso o governador vença em primeiro turno,  especialmente se o adversário de Lula for Flávio.

Há ainda o argumento de que, desde 2002, quando Lula foi eleito presidente e Geraldo Alckmin, então no PSDB, governador, o eleitor paulista quase sempre escolhe forças antagônicas para comandar o estado e o país.

A exceção foi 2018, com o voto “Bolsodória”: Bolsonaro presidente João Doria, então no PSDB, governador. Em 2022, Lula venceu a disputa pela Presidência, enquanto Tarcísio derrotou Haddad no segundo turno e se elegeu governador.   

A segunda hipótese inclui na desmobilização não apenas o eleitor de Tarcísio, mas o próprio governador do estado. Ou seja, uma vez reeleito, ele não trabalharia de corpo e alma por Flávio Bolsonaro e daria um apoio quase protocolar ao presidenciável de oposição. A razão para esse eventual “corpo mole”, conforme o jargão das campanhas, seria a disputa pelo Planalto em 2030.

Tarcísio é um nome sempre lembrado para concorrer a presidente no campo contrário ao de Lula e seus aliados. Neste ano, porém, acabou preterido por Jair Bolsonaro, seu padrinho político, que escolheu Flávio. Assim, não interessaria eleitoralmente ao governador de São Paulo ter o filho do ex-presidente eleito neste ano e, automaticamente, candidato à reeleição. 

A aposta dos líderes da aliança formada em torno de Haddad-Lula no estado é de que o governador, no comando de uma ampla frente de centro-direita, e seus aliados já estão trabalhando pelo chamado pós-Lula em 2030. Sem o apoio total desse grupo, formado majoritariamente por MDB, União-PP, PSD e Republicanos, Flávio poderia repetir Alckmin em 2006 contra o próprio Lula e ter menos votos para presidente no segundo turno do que teve no primeiro.

Importância para Flávio

Para além dessas hipóteses, o planejamento eleitoral traçado pelos petistas e seus aliados até agora para São Paulo pressupõe que Lula tenha um defensor de primeira linha até o final da campanha no estado, no caso, Haddad. Uma ala da centro-esquerda entende que não será bom para o presidente ficar sem um palanque no maior colégio eleitoral do país caso a disputa nacional se arraste até a fase decisiva, o segundo turno.

A lógica das eleições também indica que ficar sem palanque estadual no segundo turno pode desmobilizar o campo da centro-esquerda no maior colégio eleitoral do país e, em sentido contrário, deixar a frente formada em torno de Tarcísio e o próprio governador completamente focados em ajudar Flávio ou qualquer outro candidato a presidente de centro-direita em um eventual segundo turno nacional.

Mais ainda, se Tarcísio, uma vez reeleito, se engajar na campanha de Flávio ou de outro candidato de oposição, o governador poderá assumir um papel nacional de cabo eleitoral, ajudando a oposição a Lula em outros estados.

É justamente na força de Tarcísio que Flávio Bolsonaro aposta para minimizar as dificuldades que vem enfrentando no Nordeste, onde ainda não consolidou todos os seus palanques regionais. Segundo aliados do senador em São Paulo, ele conta com o empenho total do governador para derrotar Lula.