Um desdobramento interessante surgiu na campanha presidencial nesta reta de convenções partidárias para oficializar candidaturas à Presidência da República. Ronaldo Caiado (PSD), que tem como vice Gilberto Kassab — aquele que certa vez definiu esse partido como uma agremiação nem de esquerda, nem de direita, nem de centro —, contará com Aldo Rebelo como coordenador de campanha. Rebelo seria candidato pelo pequeno DC, a Democracia Cristã, mas acabou sendo sumariamente expulso do partido.
Para quem não se lembra, Rebelo presidiu entre 2005 e 2007 a Câmara dos Deputados pelo PC do B, partido que historicamente atuou como linha auxiliar do PT. Após sua passagem pelo Ministério da Defesa entre 2015 e 2016, durante o segundo mandato de Dilma Rousseff, interrompido pelo impeachment, iniciou uma migração política marcada por uma espécie de nacionalismo que flerta com ideias de direita, como, por exemplo, atribuindo à ação de ONGs estrangeiras os problemas de soberania pertinentes à Amazônia. Trata-se de uma clara aproximação com algumas das ideias bolsonaristas e da direita em geral, que contestam o papel de uma sociedade mais internacionalizada no mundo contemporâneo.
A presença de Rebelo seria o início de uma frente ampla contra a polarização entre uma centro-esquerda democrática e uma direita golpista, como ainda sugerem as recentes ações de Flávio Bolsonaro ao tentar descredibilizar as urnas, o sistema eleitoral brasileiro e buscar apoio americano para esse processo?
Uma frente ampla contra a polarização entre defensores da democracia, ainda que com ideias progressistas, e partidários do autoritarismo que capturou a direita brasileira só seria viável caso as três principais candidaturas do campo da centro-direita que aparecem nas pesquisas — Caiado, Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) — se unissem.
Essa, no entanto, parece uma tarefa praticamente impossível. Ademais, precisariam aderir à chapa Caiado-Kassab setores relevantes da sociedade civil, inclusive intelectuais e personalidades dos universos artístico e esportivo.
Em 2018, houve rumores às vésperas do fim do primeiro turno para que se formasse uma espécie de união entre candidatos como Álvaro Dias (então no Podemos) Marina Silva (Rede), Geraldo Alckmin (PSDB, com apoio do centrão) e Ciro Gomes (então no PDT), com o objetivo de impedir um segundo turno entre Jair Bolsonaro (então no PSL) e Fernando Haddad (PT).
Bolsonaro, pai de Flávio, apresentava-se então com credenciais pretensamente democráticas, enquanto Haddad era visto como preposto de Lula, que a maioria à época imaginava estar justamente condenado por crimes relacionados à Operação Lava Jato.
Se de fato houve conversas sérias para uma unificação de candidaturas, a tentativa não funcionou. Naquele momento, em que a Lava Jato ainda desfrutava de credibilidade, o PT talvez fosse ainda mais rejeitado do que hoje pelas forças centristas. A alternativa, porém, acabou sendo a eleição de um presidente que havia passado 28 anos no Congresso Nacional pregando contra a democracia e que vestiu uma roupagem liberal na economia para angariar o apoio das elites, o que conseguiu manter por certo tempo.
A adesão de Rebelo a Caiado, mais do que representar uma potencial terceira via, parece ser apenas um movimento sem maiores repercussões, para além de seu aspecto simbólico de agregar um líder histórico da direita e um ex-comunista. O episódio ajuda a ilustrar o grande realinhamento partidário vivido nos últimos dez anos, com o declínio da direita democrática representada pelo PSDB. O resultado é que a democracia brasileira hoje depende basicamente de forças de centro e de esquerda, quase todas reunidas em torno da chapa Lula-Alckmin, a ser confirmada neste fim de semana.
Para além do desafio de manutenção da democracia, essas forças também concentram, em grande medida, a defesa da soberania nacional em um momento de retomada das disputas entre grandes potências, contexto em que potências médias como o Brasil vêm sofrendo pressões crescentes, o que torna ainda mais crucial o atual momento.
Nem Caiado, nem Rebelo — tampouco o inexperiente Renan Santos — oferecem clareza sobre como lidar com o trumpismo de modo diferente do que Lula e Alckmin vêm fazendo. Zema, nesse aspecto em específico, ainda é linha auxiliar do bolsonarismo. Frente ampla por frente ampla, o atual presidente e vice ainda encarnam melhor o espírito de união entre forças outrora antagônicas em nome de um bem maior: a preservação da democracia e soberania.

