Cabo eleitoral ou algoz? EUA entram em definitivo na cena eleitoral brasileira

A quatro meses da eleição presidencial, os EUA radicalizam, mostram que a esperada interferência começou e aumentam a pressão sobre as campanhas. Com uma sucessão de sinais contraditórios, Donald Trump fez afagos à oposição liderada pelo clã Bolsonaro, ao mesmo tempo em que mostrou encantamento com o que chamou de química com o presidente Lula. Ao final, prevalece a ideia do America First. É a confirmação de algo em que o JOTA tem insistido: a política externa terá peso inédito nesta eleição.

A classificação de facções do crime organizado no Brasil como grupos terroristas, como tanto queriam Flávio Bolsonaro e seus apoiadores, e a possibilidade de taxação das exportações brasileiras em 25%, o que o filho 01 do ex-presidente garantiu ter pedido expressamente que não acontecesse, são medidas que terão impacto direto não só sobre a economia brasileira, mas sobre a cena eleitoral.

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O desafio, por ora, é identificar para qual lado a conta política será mais favorável. Os dados —ou, mais precisamente, a ausência deles —recomendam cautela. O governo ainda não pode afirmar que o episódio enfraqueceu Flávio Bolsonaro, enquanto o senador também não dispõe de evidências de que a associação com Trump tenha lhe rendido ganhos junto ao eleitorado.

O timing foi ruim

Vai ser difícil para Flávio dissociar sua foto no Salão Oval da imagem de submissão a Washington, a partir dos acontecimentos. Ainda que a indicação do novo tarifaço já estivesse em curso, a proximidade de seu anúncio à visita do candidato da oposição a Trump acaba por atrelá-lo à decisão.

Para o governo, que viu que as negociações não andavam na direção desejada, não deixa de ser um alívio. O americano passaria de algoz a cabo eleitoral, reforçando o discurso da soberania, como no ano passado, quando Lula estava nas cordas. Esta é a “bala de prata” para a campanha, como vem sendo chamada pelo entorno do presidente.

Na manhã desta terça-feira (2/6), integrantes da Esplanada dos Ministérios estiveram por mais de duas horas na Vice-presidência em uma espécie de gabinete de crise. Estavam presentes Geraldo Alckmin, além dos ministros do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira, da Fazenda, Dario Durigan, do Planejamento, Bruno Moretti, da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, e o embaixador Mauricio Lyrio, pelo Ministério das Relações Exteriores. A estratégia é decidir os próximos passos e organizar a narrativa. No Palácio do Planalto, a ordem é aprofundar a argumentação considerada até aqui bem-sucedida da defesa da soberania e da democracia, além de mirar nos erros da oposição.

A ala dura prevaleceu

Por mais que os canais de diálogo se mantenham abertos, o que não era o caso no ano passado, e que os presidentes tenham uma relação cordial, o clima da relação azedou. Mais do que isso, está claro que há uma disputa de grupos de interesse dentro da administração Trump. A ala mais radical, liderada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, conseguiu impor-se nas últimas semanas.

No foco da pressão da Casa Branca estão os meios de pagamento eletrônico, sobretudo o Pix, as big techs e os minerais críticos. Vale lembrar que estes últimos ficaram na lista de isenção dos eventuais 25% que podem ser aplicados ao Brasil, se as negociações falharem de vez até 15 de julho.

Desde a posse de Trump, a avaliação dentro do governo Lula era a de que a interferência americana na eleição era inevitável, como mostrou o JOTA ainda em janeiro, pouco depois da posse do americano.

A maior preocupação naquela época, e agora, continua sendo com a pressão insidiosa, ou escancarada, via big techs, a partir das plataformas e das redes sociais. No arrazoado do relatório preliminar da investigação comercial sob a seção 301 apresentado no final da noite de segunda-feira (1/6), fica claro que os argumentos do lado americano não mudaram. Nem mesmo após sucessivas rodadas de negociação.

O USTR volta a falar em ordens secretas e relembra o caso de Allan dos Santos e Paulo Figueiredo, aliados bolsonaristas, que estiveram em parte das justificativas usadas pela Casa Branca para anunciar o tarifaço contra o Brasil em julho de 2025, na carta em que condicionava o percentual à interferência no processo que levou o ex-presidiente Jair Bolsonaro à prisão.

Cabo eleitoral ou algoz?

Para Flávio Bolsonaro, o encontro com Trump produziu forte repercussão política e midiática, mas ainda não se converteu em ganho líquido de opinião pública. Um levantamento da Real Time Big Data, empresa de pesquisas ligada à Rede Record e ao Republicanos, divulgado ontem, sugere que o episódio não produziu um saldo político claramente favorável para nenhum dos lados. Segundo a pesquisa, 42% dos entrevistados classificam o encontro como neutro, enquanto avaliações positivas e negativas sobre o encontro aparecem empatadas em 29%.

A pesquisa não perguntou diretamente sobre as tarifas nem sobre a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas. O que foi medido foi a percepção dos eleitores sobre o encontro entre Flávio e Trump. O equilíbrio entre avaliações favoráveis e desfavoráveis sugere que, ao mesmo tempo em que o episódio encontra respaldo entre simpatizantes do campo bolsonarista, desperta resistência semelhante em outros segmentos do eleitorado. Até aqui, portanto, a aproximação com Trump parece ter produzido mais visibilidade do que ganho eleitoral para o senador.

Para o Planalto, o risco está em superestimar o potencial de desgaste do adversário decorrente das medidas anunciadas pela administração Trump. Lula já foi beneficiado politicamente pelo tarifaço imposto por Trump em meados de 2025, episódio que ofereceu ao presidente uma oportunidade de ocupar o centro do debate público sob a bandeira da defesa da soberania nacional, das instituições, do agronegócio e das empresas do país. O episódio também contribuiu para aproximar Lula de eleitores independentes, que não se reconhecem plenamente nem no campo lulista nem no bolsonarista.

O limite do crescimento

O contexto atual, contudo, é diferente. A poucos meses do início efetivo da disputa presidencial, não está claro quanto espaço adicional existe para crescimento eleitoral. O consenso das pesquisas no agregador do JOTA coloca Lula na faixa de 45% a 46% das intenções de voto totais, já incluídos brancos, nulos e indecisos. 

Trata-se de um nível elevado de apoio, que o aproxima da marca simbólica de metade do eleitorado. Em outras palavras, mesmo que o episódio produza algum desgaste para o adversário, não é evidente que esse dano se traduza automaticamente em ampliação do apoio para o presidente. Uma tarefa naturalmente mais difícil quando se parte de patamares já elevados de intenção de voto e diante da existência de um contingente expressivo de eleitores que vê com reservas a perspectiva de um quarto mandato de Lula.