A reafirmação do mito de Lula foi o fio condutor do evento de largada de sua campanha à reeleição neste domingo (16/8), em São Bernardo do Campo. No estádio da Vila Euclides lotado, o presidente voltou ao lugar onde nasceu politicamente para recontar sua própria história, religar-se às origens e incendiar uma militância que terá papel central na campanha. Foi um ato carregado de símbolos e emoção. E muito mais voltado para explicar quem Lula foi do que para apresentar quem pretende ser num quarto mandato.
Praticamente todo o roteiro olhou pelo retrovisor. Companheiros das greves do fim dos anos 1970 apareceram em vídeos e subiram ao palco onde o sindicalista Lula começou a se transformar em liderança nacional. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, evocou Sócrates e a Democracia Corinthiana do início dos anos 1980. Fafá de Belém cantou o Hino Nacional, numa referência às Diretas Já, movimento que a colocou ao lado de Lula e Sócrates no palanque. A primeira-dama Janja lembrou Marisa Letícia, em uma parte dedicada às mulheres. A campanha montou uma espécie de álbum de família da esquerda brasileira, com Lula como personagem central.
O próprio presidente seguiu o roteiro. Gastou cerca de metade dos 40 minutos de discurso revisitando sua trajetória e personagens que cruzaram seu caminho. Lembrou de Florestan Fernandes, Marco Aurélio Garcia, Chico Mendes e de outros companheiros já mortos. Chorou ao falar da mãe. Antes de pedir votos para mais quatro anos, Lula parecia interessado em lembrar à plateia por que chegou até ali.
Quando saiu da memória para o presente, comparou indicadores de emprego, renda e inflação e defendeu também a gestão fiscal de seu governo com o do ex-presidente Jair Bolsonaro. Disse que as contas públicas estão melhores do que na gestão do pai de Flávio Bolsonaro, seu rival nesta disputa. É uma afirmação que certamente encontrará questionamentos fora da Vila Euclides, especialmente no mercado, onde a trajetória da dívida e o tamanho do ajuste necessário em 2027 continuam entre as principais interrogações sobre um eventual Lula 4.
+JOTA: Quem são os candidatos a presidente da República do Brasil nas eleições 2026
Houve, porém, algumas pistas sobre o futuro. Na segurança pública, Lula voltou a defender a criação de um ministério específico, condicionada ao avanço da PEC da Segurança no Congresso. Endureceu o discurso ao dizer que pretende prender “todo mundo que acha que manda na favela”, mas procurou diferenciar sua proposta da retórica tradicional de combate ao crime. Para ele, “matar bandido na favela é fácil”. O desafio, disse, é chegar a quem tem dinheiro, poder e ligação com as organizações criminosas. Na educação, prometeu ampliar o número de crianças em escolas de tempo integral, como já vinha sinalizando.
Mas o tema de futuro que recebeu mais ênfase foi a exploração de minerais críticos e terras raras. Lula disse que o Brasil deve explorar, processar e agregar valor a essas riquezas antes de exportá-las. Procurou ainda dar ao assunto uma moldura de soberania, ao afirmar que o país não fez opção nem pela China nem pelos Estados Unidos. “Ninguém vai explorar nossos minerais críticos. Nós é que vamos explorar em benefício do povo brasileiro”, disse.
A escolha de São Bernardo para a largada tinha lógica política. Campanhas também precisam de liturgia, memória e identidade. Lula sabe que sua biografia continua sendo um de seus principais ativos eleitorais, e também de desgaste junto a uma parcela significativa do país que a rejeita. Num estádio tomado por convertidos, recontá-la ajuda a recuperar entusiasmo, mobilizar a base e reconstruir uma mística que o exercício cotidiano do poder inevitavelmente desgasta.
Mas a Vila Euclides é ponto de partida, não linha de chegada. A história pode reacender quem já acredita em Lula. Mas a eleição será vencida também fora daquela arquibancada, entre eleitores que não têm a memória afetiva das greves do ABC e que avaliarão de maneira mais prosaica se Lula merece mais quatro anos no Planalto.
Para conquistá-los, o presidente terá de transformar o passado que o trouxe até aqui em uma razão para acreditar que ele ainda representa a ideia de um futuro melhor.

