A participação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), em uma live (transmissão ao vivo de internet) ao lado do senador Flávio Bolsonaro (PL) nesta quarta-feira (23/9) elevou o nível de tensão na campanha de Lula (PT). O estado, maior colégio eleitoral do país, é considerado estratégico para o presidente conseguir se reeleger em outubro.
Chamou a atenção a contundência do governador em pedir voto para Flávio e em criticar o presidente. O temor do PT é que Tarcísio se engaje e mergulhe de cabeça na campanha presidencial já nesta reta final de primeiro turno, o que pode estimular um “voto útil de chegada antipetista” e a favor do senador, conforme a definição de quem tem acompanhado de perto o movimento do eleitor neste ano e em eleições anteriores.
Novas participações do governador de São Paulo, candidato à reeleição, ao lado do presidenciável do PL estão previstas para os próximos dias. Os encontros serão utilizados nos programas de Flávio no horário eleitoral gratuito de rádio e televisão. O prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), também participou da transmissão de hoje.
Até a live de hoje (da campanha oficial do senador), o governador vinha mantendo uma certa distância regulamentar de Flávio. Esse afastamento ia ao encontro dos interesses do presidente no estado. O entorno do petista, mesmo não admitindo publicamente, trabalha para não contrariar e, em alguns casos, até estimular o voto “Tarcilula” ou “Tarlula”: Tarcísio para o Executivo estadual e Lula para o Planalto.
Nos bastidores da política paulista, chegou a circular a informação de que haveria um acordo tácito entre estrategistas de Lula e de Tarcísio para evitar a vitória de Flávio Bolsonaro neste ano, já que o governador é um nome sempre lembrado para concorrer à Presidência em 2030. A live de hoje, no entanto, sinalizou em outra direção.
“Quem vota Tarcísio, vota Flávio”, afirmou o governador, que disse ainda ter sido sabotado pela gestão de Lula na Presidência. A mesma acusação já havia sido feita pelo o senador, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, na convenção estadual do Republicanos, realizada no início de agosto.
“Vamos ser pragmáticos. A gente pode ganhar no primeiro turno”, afirmou Tarcísio. Essa declaração do governador foi interpretada pelas campanhas de Lula e pela do senador como um indicativo de que o governador deverá se empenhar em busca de um voto antipetista de chegada: “Eu quero falar com toda a humildade aqui, com todo respeito aos meus adversários, mas de fato quem pode vencer o Lula é Flávio Bolsonaro”, disse. “Tem um antipetismo muito forte que vai aparecer nos próximos dias”, completou.
Discrepância nas pesquisas e importância estratégica
Enquanto Tarcísio é líder disparado nos levantamentos que abordam a disputa pelo governo de São Paulo, Flávio não tem a mesma vantagem sobre Lula no estado. Nos últimos dez dias, todas as principais pesquisas foram unânimes em apontar a tendência de reeleição do governador ainda em primeiro turno, em um revés para Fernando Haddad (PT), o candidato escolhido pelo presidente da República.
No entanto, os números da disputa estadual não se refletem no cenário presidencial em São Paulo. Segundo os principais institutos, Flávio lidera numericamente à frente de Lula (PT), mas a diferença é mais estreita. Em um dos melhores resultados para o candidato de oposição, conforme o instituto RealTime Big Data, no primeiro turno, o senador marca 51% das intenções de voto no estado, enquanto o petista aparece com 45% da preferência.
O estafe de Flávio avalia que, se houver um envolvimento direto de Tarcísio que motive a transferência de votos dele para o senador, poderá ser criada uma diferença decisiva nacionalmente. Em sentido contrário, os petistas trabalham para repetir os resultados da eleição de 2022, quando Jair Bolsonaro venceu Lula por 47% a 40% no estado no primeiro turno, margem considerada boa pelo entorno do presidente diante do conservadorismo histórico do eleitor paulista.
Fim da reeleição e elogios a Bolsonaro
A cúpula da campanha de Tarcísio justificou até agora a distância que ele manteve de Flávio em São Paulo utilizando dados da rejeição ao filho de Jair Bolsonaro no estado: 48% segundo o RealTime Big Data. Em outros termos, uma aproximação muito estreita entre ambos poderia “contaminar” o governador na caminhada rumo a mais um mandato do Palácio dos Bandeirantes.
Reservadamente, porém, essa distância era interpretada como um indicativo de que a Tarcísio não interessa uma vitória de Flávio, pois o filho de Jair Bolsonaro, ao contrário de Lula, poderá concorrer à reeleição em 2030, algo vetado ao petista, que estará em seu segundo mandato consecutivo. O governador de São Paulo, apesar de suas negativas públicas, chegou a se colocar como um presidenciável para este ano, mas foi preterido pelo ex-presidente na indicação de seu filho mais velho.
Na live de hoje, em uma tentativa de demonstrar que acatou e que respeita a decisão do ex-presidente, Tarcísio afirmou: “Eu devo muito ao teu pai, que é um cara sensacional. Eu quero ver ele subindo a rampa do Planalto contigo”.
Outro ponto abordado na live foi a promessa feita por Flávio de, uma vez eleito presidente, trabalhar pelo fim da reeleição no Brasil. Essa seria, conforme aliados e interlocutores do senador e do governador, a senha para Tarcísio se empenhar de imediato na campanha porque, em 2030, ele poderá concorrer ao Planalto com o apoio da família Bolsonaro.
Segundo apurou o JOTA, porém, ainda não há segurança dentro do círculo mais próximo ao governador de que essa promessa será cumprida, principalmente porque as circunstâncias políticas e o cenário podem mudar em quatro anos.

