Quando chegou ao Senado, em 2003, Paulo Paim (PT-RS) estava iniciando uma trajetória que iria colocá-lo em uma seleta lista que tem, entre outros, Renan Calheiros (MDB-AL), Maria do Carmo Alves (PP-SE), José Sarney (MDB-AP), Pedro Simon (MDB) e Eduardo Suplicy (PT-SP), todos com ao menos três mandatos (oito anos cada) consecutivos. De suas cadeiras, eles participaram de momentos decisivos da vida nacional e ajudaram na consolidação da democracia no Brasil.
No caso de Paim, a trajetória percorrida inclui ainda dois mandatos como deputado federal pelo Rio Grande do Sul. Ou seja, o senador está no Congresso Nacional desde 1º de fevereiro de 1987 e integrou a Assembleia Nacional Constituinte, que elaborou a Constituição de 1988.
Neste ano eleitoral de 2026, Paim teria boas chances de obter uma nova vitória nas urnas e conseguir seu quarto mandato consecutivo, mas decidiu abrir mão da reeleição em nome de ajudar a promover uma “renovação” na política. Ao JOTA, o senador justificou o afastamento da política pela necessidade de “cuidar da saúde” e pelo desejo de transferir a responsabilidade para a nova geração de políticos.Dessa forma, o Senado Federal perderá, a partir do ano que vem, uma de suas mais importantes vozes na defesa das pautas trabalhistas, dos aposentados e da população negra.
“Eu tô entre Câmara e Senado há 40 anos de mandato, quatro de federal e três de senador. Eu entendo que é chegada uma hora em que tu tem que passar o bastão para as gerações mais novas”, disse Paulo Paim. “Cuidar mais da saúde, que eu tô precisando realmente cuidar”, completou o parlamentar.
Em abril, Paulo Paim foi internado em São Paulo para realizar uma série de exames que apontaram a necessidade de uma intervenção cirúrgica bilateral nos quadris.
Aos 76 anos, Paim, em acordo com o PT gaúcho, encerrará sua longeva carreira como senador e apoiará para o Senado o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) na eleição deste ano. Antes, no entanto, o senador tem mais uma árdua batalha pela frente que poderá encerrar com chave de ouro sua história na Casa.
Paim é o autor da proposta mais antiga em tramitação no Congresso para acabar com a jornada 6×1. Ele defende a PEC 148/2015 e comemorou o avanço dessa agenda na Câmara, que agora será apreciada pelo Senado. “Quando defendemos as 40 horas, a escala 5×2, não estamos falando de algo revolucionário ou impossível; estamos falando de políticas humanitárias, de equilíbrio e de bom senso. O principal ponto é a qualidade de vida”, disse, em pronunciamento recente na tribuna.
Ao JOTA, o senador defendeu a necessidade de aprovação do fim da escala 6×1 e que a medida iria impulsionar a geração de empregos. “Getúlio, no Brasil, trouxe a jornada de quase 48 horas, porque antes não havia limite. Na Constituinte, praticamente 40 anos depois, aprovamos a redução de 48 para 44 horas. Agora, praticamente 40 anos depois, estamos fazendo o mesmo debate que fizemos naquela época sobre as 40 horas. E os argumentos continuam os mesmos”, disse o senador petista.
“E acho que isso é possível. Significa mais emprego, mais renda circulando na economia, menos excesso de trabalho, menos rotatividade e mais gente trabalhando, produzindo, recebendo e consumindo”, disse o parlamentar otimista para votação do tema ainda neste ano.
História de vida
Antes de ocupar uma das cadeiras do Senado Federal, Paim começou a trabalhar ainda criança, em uma fábrica de vasos de barro em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Lá, ele ouviu conselhos de Atílio Bovo, dono do negócio, que incentivou o jovem a nunca desistir dos estudos.
“Ele dizia: ‘Olha, você vai trabalhar comigo. Você vai amassar as bolinhas [de barro], e eu farei os vasos. Mas, à tarde, você vai para a aula.’ Eu dizia: ‘Vou.’ Eu diria que o que eu ganhava ali já pagava o chinelo, o tamanco e os livros”, lembra Paulo Paim.
Paulo Renato Paim nasceu em março de 1950 no município de Caxias do Sul. Ele é filho da dona de casa Ventura da Silva Paim e do metalúrgico Ignácio Alves Paim.
Ainda menino, Paulo Renato ingressou no Senai e continuou os estudos. Nesse período, ele começou a trabalhar como metalúrgico e frequentava a escola no período noturno, onde atuou como presidente do grêmio estudantil e ingressou na luta por direitos sociais ainda durante o período da Ditadura Militar (1964-1985). Naquela época, o estudante foi, em diferentes momentos, “convidado a deixar” postos de liderança.
Ao olhar para trás, para o cenário de forte pressão dos militares, Paulo Renato se recorda de momentos de muito medo, em um contexto em que amigos e companheiros de luta eram levados pelo regime e muitas vezes torturados e até mortos.
Na década de 1970, quando era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas e da Central Estadual dos Trabalhadores, Paim organizou uma caminhada que saiu do município gaúcho rumo a Porto Alegre. A mobilização contra o regime começou com cerca de 5 mil pessoas e terminou com 20 mil manifestantes protestando nas principais avenidas da capital gaúcha.
Após a mobilização, ele seguiu para Caxias do Sul, onde foi detido pela cavalaria do Exército, interrogado e colocado em uma cela com criminosos comuns, sendo liberado após a intervenção de seu pai, que explicou aos militares que ele era estudante.
Anos depois, já como secretário-geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT), voltou a enfrentar pressão ao ser interrogado em São Paulo quando tentava embarcar para a Europa com um dossiê denunciando a repressão no Brasil. Ele foi liberado após a chegada de representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mas teve que deixar os documentos para trás.
As experiências de luta durante os anos de chumbo ajudaram a consolidar sua atuação sindical e fortaleceram a liderança que, anos depois, o levaria ao Congresso Nacional.
Chegada ao Congresso e Constituinte
A escolha do nome de Paulo Renato Paim para representar os trabalhadores na Constituinte aconteceu após um congresso estadual de metalúrgicos, no qual contou com o apoio de Valdomiro Orso, presidente da Federação dos Metalúrgicos do Rio Grande do Sul.
“A gente fazia campanha em papel de pão. Eu mandava recortar os papéis e colocar o meu número, porque não tinha dinheiro; naquela época não havia”, conta o senador.
Viajando pelo Rio Grande do Sul acompanhado de Valdomiro, Paulo Paim foi eleito deputado constituinte em 1986 pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Com o fim da ditadura, o metalúrgico se mudou para Brasília, onde dividiu um apartamento funcional com outros dois deputados constituintes: Luiz Inácio Lula da Silva e Olívio Dutra.
“No meu discurso, eu deixei claro: ‘Vocês [metalúrgicos] me escolheram, mas não vou lá para defender só os trabalhadores ou só os metalúrgicos.’ Eu já tinha clara uma noção de sociedade. ‘Eu vou lá para defender as mulheres, os trabalhadores de todas as categorias, os desempregados, os aposentados e os jovens.’ Assim foi a marca do meu mandato”, destaca o senador.
Projetos e atuação legislativa
Após participar da elaboração da Constituição de 1988, Paulo Paim foi reeleito para mais dois mandatos na Câmara dos Deputados. Em 2002, chegou ao Senado, na onda que levou Lula (PT) até a Presidência pela primeira vez, para representar o Rio Grande do Sul e, desde então, tem trabalhado na defesa de pautas sociais.
Com mais de duas décadas no Legislativo, Paulo Paim encontra dificuldades para elencar quais foram os projetos que mais marcaram sua trajetória política.
“O marco de toda essa história foi a Assembleia Nacional Constituinte. Foi um momento nobre, belíssimo. Esse Congresso virou uma cidade: havia milhares de pessoas todos os dias participando, discutindo e querendo contribuir para a elaboração da Carta Magna, e saiu uma carta moderna. Eu considero que, para a época, foi avançada. E hoje tem aquela frase que é do Ulysses [Guimarães]: ‘Está achando ruim esse Congresso? Então espere o próximo, será pior’”, destaca Paulo Paim.
“Tudo para mim foi importante e marcante; eu faria tudo outra vez. Eu construí tanto na Constituinte quanto na autoria do Estatuto do Idoso, do Estatuto da Igualdade Racial, do Estatuto da Pessoa com Deficiência, da política do salário mínimo e da Lei dos Autistas”, conta o senador.
Relação com FHC e política do salário mínimo
No caso do salário mínimo, Paulo Paim se recorda com carinho de um momento que teve com o então presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), que, apesar das diferenças políticas, mantinha com ele uma relação de respeito. Na época, o então deputado pressionava o governo para fixar o salário mínimo em US$ 100.
“Eu incomodava tanto [o governo FHC] com o salário mínimo, eu queria US$ 100. Teve uma reunião em que ele falou: ‘Ô Paim, está contente? O salário mínimo chegou a 100 “paims”, US$ 100 que você queria tanto, Paim.’ De lá para cá sempre trabalhei para que fosse inflação mais PIB”, recorda o senador.
Além dos trabalhos citados por Paulo Paim, ele ajudou a estabelecer, dentro da Constituição, o limite da jornada de trabalho em 44 horas semanais, uma luta que contou com o apoio de parlamentares mais à esquerda e também do centro.
Planos após a política
Paulo Paim anunciou que pretende concentrar seus esforços no Centro de Integração Paulo Paim (CIPP) a partir de 2027, onde atua no auxílio a pessoas em situação de vulnerabilidade.
Até a aposentadoria, o senador quer deixar novos legados para o futuro, como a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, tarifa zero no transporte público e uma mudança estrutural no financiamento da Previdência Social.
Com toda a sua trajetória na vida pública, se pudesse voltar no tempo e conversar com o menino de 9 anos que amassava barro na fábrica de vasos do senhor Atílio, ele diria que a missão foi cumprida.
“Eu diria para esse menino: ‘Missão cumprida.’ Tudo o que eu sonhei, pensei, de uma forma ou de outra estou realizando para ele. Se tivesse que retornar, eu retornaria lá para o menino e faria tudo outra vez. Trabalhei, estudei e sempre estive aqui com uma política de ajuda humanitária”, conclui Paulo Renato Paim.

