Um empréstimo de quase R$ 15 milhões, feito por uma empresa que pertence a uma funcionária de longa data de John Textor, pode dificultar ainda mais a situação da SAF Botafogo, que está à venda. Em 2025, a Montegra Holdings LLC, da Flórida, emprestou R$ 14,87 milhões ao Glorioso, conforme demonstrações financeiras do time de dezembro daquele ano. O CNPJ credor está no nome de Daniela Colon, funcionária de Textor há mais de dez anos. Desde pelo menos 2018, ela atua como sua assistente direta.
O empréstimo, articulado por Textor, poderia simplesmente representar seus esforços para tentar salvar a saúde financeira do clube, mas há um aspecto inusitado: apesar do valor pequeno, a transação é garantida pelo ativo mais caro a qualquer time de futebol – sua equipe esportiva. O Botafogo entregou à Montegra os direitos relativos aos recebíveis dos jogadores, incluindo receitas decorrentes de transferências. A informação foi confirmada ao JOTA pelo próprio Textor.
Há outro fato curioso: os mesmos ativos cedidos à Montegra foram dados como garantia de um empréstimo de US$ 25 milhões que a investidora GDA Luma concedeu ao Botafogo. A GDA Luma é hoje a principal candidata para assumir o controle da SAF, que está à venda – contra a vontade de Textor.
Foi o empresário americano que levou a GDA Luma para dentro dos negócios do time. Mas, hoje, ele e Gabriel de Alba, CEO da GDA, não estão mais do mesmo lado da mesa.
Nos bastidores do clube, há uma análise de que John Textor tentou fazer do empréstimo com a Montegra um “teste” do que viria a fazer com a GDA em proporções bem maiores: basicamente, deixar o controle sobre os ativos mais importantes do Botafogo na mão de pessoas de confiança. A GDA, porém, teria passado de amiga a inimiga após uma promessa de aporte extra que não se concretizou.
Ao JOTA, Textor disse que a Montegra irá processar a GDA por fraude bancária, já que a investidora se valeu da mesma garantia que havia sido cedida à empresa da Flórida.
Para além da briga por fraude, se a preferência da Montegra sobre a garantia for confirmada, pelo fato de ela ser a primeira credora, a GDA – na condição de nova controladora do Botafogo – teria que pagar a dívida de R$ 15 milhões para ter direito inequívoco às receitas geradas pela equipe esportiva.
O CNPJ de Daniela Colon já moveu uma ação na 2ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro para declarar seu direito de cobrar os R$ 15 milhões do Botafogo, mesmo a SAF estando em recuperação judicial (RJ).
Cessão fiduciária
A Montegra teve direito aos recebíveis dos jogadores por meio de uma cessão fiduciária. Esse seria o motivo pelo qual a empresa poderia executar a dívida, já que não figura como credora na recuperação judicial da SAF – a Lei 11.101/2005 entende que créditos cedidos fiduciariamente são extraconcursais, isto é, ficam de fora do plano de recuperação. A reportagem teve acesso à relação de credores, que confirma que a empresa da Flórida não foi, até agora, listada como parte da RJ.
Contratos cruzados
Diferente da Montegra, a GDA consta como a segunda maior credora na recuperação judicial da SAF. O contrato de empréstimo com o Botafogo, ao qual o JOTA teve acesso, tenta proteger a investidora, blindando-a da preferência que a Montegra poderia reivindicar na hora de executar a garantia, já que é a primeira credora.
Uma das cláusulas do documento diz que os dois credores estão no mesmo nível de preferência, “pari passu“. Outra determina que “nenhuma execução, aceleração ou aplicação de recursos sob a Linha de Crédito Montegra poderá ocorrer, a menos que um Evento de Inadimplência tenha ocorrido sob este contrato” – isto é, o contrato com a GDA.
Segundo advogados ouvidos pela reportagem e que não representam nenhuma das partes envolvidas, o que GDA tentou fazer foi criar uma espécie de “cross default” para anular a autonomia da Montegra e dizer que a empresa da Flórida só teria direito de cobrar a garantia se o Botafogo quebrasse cláusulas do contrato com a GDA. “Mas se a Montegra não interveio nesse instrumento, como isso pode ser oponível a ela?”, questionou um advogado.
Este é o argumento de Textor, que diz que, para o contrato GDA-Botafogo produzir efeitos contra terceiros, a GDA teria que ter assinado um acordo intercredor com a Montegra. A confusão impacta diretamente a transferência de jogadores.
Por exemplo, o zagueiro argentino Alexander Barboza foi vendido pelo Botafogo para jogar no Palmeiras a partir do segundo semestre de 2026. “A GDA enviou uma carta para o Palmeiras dizendo: ‘Ei, soubemos que vocês estão comprando o Barboza, certifiquem-se de nos enviar o dinheiro.’ Bem, isso é completamente ilegal. É fraude bancária, porque eles foram o segundo banco a aparecer”, disse John Textor ao JOTA.
Por outro lado, há a análise de que a própria lisura do empréstimo concedido pela Montegra deveria ser questionada. Um advogado ouvido pela reportagem notou a “desproporção entre a garantia e o valor da dívida” e disse que seria preciso apurar se a celebração do contrato seguiu os ritos de aprovação necessários, considerando o envolvimento com partes relacionadas – como a empresa de uma funcionária do dono do clube.
Questionados sobre o impacto direto que a disputa pode ter na venda da SAF, dois advogados avaliaram que, como a dívida com a Montegra é relativamente baixa (a venda de poucos jogadores seria suficiente para quitar o crédito), o contrato não teria como travar os ativos por muito tempo. “A garantia só subsiste enquanto subsistir o débito”, disse uma fonte.
Mesmo que a GDA se recuse a satisfazer o crédito da Montegra, uma alternativa seria depositar os R$ 15 milhões em juízo para liberar a garantia. Na teoria, a obrigação nominal de pagar as dívidas é da SAF, mas o Botafogo não tem recursos e depende dos acionistas para se livrar da bola de neve de endividamento.
Cisão com GDA
Em fevereiro de 2026, a GDA Luma emprestou US$ 25 milhões ao Botafogo. Textor, porém, queria mais. “Gabriel [de Alba, CEO da GDA] prometeu muito mais do que US$ 25 milhões. Ele prometeu US$ 150 milhões “, disse o executivo ao JOTA. Desse total, segundo ele, US$ 50 milhões iriam para o Botafogo, US$ 50 milhões iriam para comprar a participação da Ares Capital e outros US$ 50 milhões seriam aportados como capital estratégico.
A Ares disputa com Textor o controle da Eagle Footbal, atual controladora oficial do Botafogo. O acordo para comprar a Ares permitiria que o americano assumisse o controle definitivo não só do Botafogo, mas também do clube francês Lyon – que está atualmente sob o guarda-chuva da Eagle.
Textor lamenta que a suposta promessa de aporte foi frustrada, dizendo que a GDA “nunca apresentou comprovante de fundos”. Por isso, nas suas palavras, a Montegra veio a ser “uma protetora do Botafogo contra a agressão da GDA”.
Além disso, Textor alega que a posse das ações que ele detinha no Botafogo não foram transferidas à Eagle, de modo que o clube social não teria o direito de negociar, com a Eagle, a venda dos papéis à GDA Luma.
Contudo, dentro do clube e para grande parte da torcida alvinegra, o empresário não é mais bem quisto. Em comunicado oficial do dia 14 de maio, o Botafogo disse que “a condução adotada pela Eagle Football e por John Textor revelou absoluto descompromisso com a estabilidade financeira e institucional da SAF Botafogo, contribuindo diretamente para o agravamento da crise enfrentada pelo clube e para o cenário de extrema fragilidade que tornou inevitável o ajuizamento da Recuperação Judicial”.
A SAF do Botafogo tinha, em dezembro de 2025, um passivo superior a R$ 2,6 bilhões, o que acabou levando ao processo de recuperação judicial. Fora a reestruturação da SAF, o clube associativo possui também uma recuperação extrajudicial e um Regime Centralizado de Execuções (RCE) para tentar equacionar as dívidas.
A reportagem procurou o escritório Vieira Rezende, que está atendendo a GDA Luma no Brasil, mas a banca não quis comentar. Procurada, a SAF Botafogo também não se manifestou sobre o assunto até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.

