Indicado pelo pai, Jair Bolsonaro – impossibilitado de concorrer às eleições por crime de tentativa de golpe de Estado –, Flávio Bolsonaro rapidamente se alçou ao status de candidato favorito da direita à vitória nas eleições de 2026.
Surpresa para alguns, que de início não levaram à sério a candidatura, a rápida ascensão de Flávio não foi um raio caído de um céu límpido, mas antes consequência da explosiva mistura de fanatismo messiânico em torno de Bolsonaro pai e de um oportunismo por parte de setores da elite brasileira que têm no fisiológico centrão seu representante ideal.
Pensar em Flávio como mais um sintoma do bolsonarismo em vez de uma candidatura circunstancial nos esclarece alguns pontos. O primeiro deles é óbvio: Jair Bolsonaro continua sendo uma das maiores forças políticas brasileiras e, ao que parece, sua prisão, por si só, não mudará isso. E, enquanto força política, Jair tem uma grande capacidade em transferir seu potencial eleitoral para Flávio, que se candidata em nome do pai, seja para libertá-lo da prisão, seja para avançar a agenda retrógrada da extrema direita brasileira.
Num primeiro momento, o cenário nos remete à situação de Lula em 2018, quando tentou fazer o mesmo com seu herdeiro político Fernando Haddad, e não obteve vitória. Porém, algumas diferenças importantes devem ser pontuadas entre a centro-esquerda e a extrema direita quando o assunto é candidatura por procuração.
A mais notória delas é justamente o aspecto fanático-messiânico que Jair Bolsonaro encarna. Embora o mesmo também possa ser dito da relação de parte do eleitorado de Lula, mesmo a natureza de ambos os messianismos me parece diferente. O imaginário político construído em torno de Lula está mais próximo do ideal de tipo populista carismático que surgiu nos anos 1930, com expoentes como Getúlio Vargas, no Brasil, e Juan Domingo Perón, na Argentina.
Para além de toda a questão teórica que problematiza o conceito de “populismo” – e com a qual estou de acordo, dada a plasticidade na qual o termo foi utilizado ao longo de um século –, o que procuro captar não é a precisão do conceito, mas o imaginário que ele provoca.
Sendo assim, a ideia de líder populista carismático que evoco aqui é a do tipo de líder que provoca uma confiança exagerada em seu público, muito próxima à adoração, mas que se estabelece em uma relação de benefício mútuo, visto que o público que o idolatra recebe ou busca receber algo em troca.
Trata-se, portanto, de uma relação pautada em confiança e reconhecimento, construída em um ambiente no qual tais líderes carismáticos estabelecem uma ruptura com os políticos anteriores em sua relação com o público. É, por conseguinte, uma relação estabelecida a partir de uma concepção racional, ainda que às vezes se manifeste por meio da idolatria e da idealização do candidato.
O messianismo em torno de Jair Bolsonaro parece ter outra fundamentação. Sua idolatria não parece estar fundamentada em uma lógica racional de “troca de benefícios”, mas antes em uma concepção mística-mágica na qual o líder encarna um poder e vontade de antemão predestinados a salvar o país e o levar a um destino grandioso. É, portanto, um messianismo fascista, não importando se consideramos ou não Bolsonaro pai um fascista. Aqui, vale mais a natureza do caso que o nome que damos a ele.
Se a natureza do messianismo de Bolsonaro é fascista, isto nos leva a um segundo ponto: a indicação de Flávio, diferente da de Haddad em 2018, é de uma lógica dinástica, enraizada em uma concepção mística em torno do líder carismático. Nesse sentido, Flávio “encarna” o pai, enquanto Haddad apenas representava Lula. A crítica feita pelos opositores de Lula de que Haddad seria um fantoche é justamente o ponto forte no caso de Flávio: o que se espera é justamente que ele atue como o pai, sendo, no imaginário de seus eleitores, o mesmo que ele é para o próprio Jair: extensão do líder.
Boa parte das análises políticas ao longo do ano deverão se dedicar à viabilidade eleitoral de Flávio, mas é importante refletir sobre seu aspecto mais ameaçador: enquanto o bolsonarismo continuar sendo essa força política messiânica, Flávio continuará sendo uma ameaça à democracia devido ao aspecto dinástico que começa a se formar. Provavelmente estamos diante de uma nova etapa do bolsonarismo e, quiçá, da política brasileira.
O cenário é ainda mais preocupante considerando que, enquanto o messianismo fortalece Flávio, a centro-direita e a direita tradicional conservadora não conseguem criar um candidato competitivo: Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior e Eduardo Leite – todos do PSD – ainda não são suficientemente competitivos (ou mesmo reconhecidos) em âmbito nacional e têm dificuldade em apresentar propostas que sejam diferentes das propostas do bolsonarismo.
À esquerda, parece difícil escapar de uma tragédia há muito anunciada: o personalismo construído em torno de Lula sufocou a formação de um herdeiro político forte. Deveria ser Haddad, que demonstrou competência enquanto ministro da Fazenda, mas lhe parece faltar carisma para o cargo, além de ser alvo constante do fogo amigo petista.
A princípio, ganhando ou perdendo, a candidatura de Flávio modifica o cenário político para os próximos anos. Se o Brasil deu o exemplo ao mundo ao punir Bolsonaro pai por seus crimes, talvez seja o momento de seguir o modelo francês de barrar a extrema direita: as esquerdas e as direitas devem deixar as diferenças de lado por um breve momento e votar contra o autoritarismo. Tem funcionado por lá. Ao menos até agora. Por estas bandas, falta boa vontade por parte da direita tradicional para colocar a democracia acima de ganhos eleitorais imediatos.

