Capinar em Pinda e escrever livros

Ao longo de sua história, iniciada em 1980, o PT consolidou a narrativa de que determinadas candidaturas majoritárias são, na verdade, “missões” delegadas a “soldados” ou a “agentes” de uma causa maior, como a construção do partido. Esse teria sido, por exemplo, o motivo de o próprio Lula, líder máximo do petismo, ter concorrido a governador de São Paulo em 1982.

Lula terminou a disputa, vencida por Franco Montoro (então no MDB), em quarto lugar, mas teve uma votação relativamente expressiva e chamou a atenção dos brasileiros e do mundo para algo novo que surgia com a redemocratização: o Partido dos Trabalhadores. Exatos 44 anos depois dessa vitória política, alguns petistas seguem aplicando a mesma lógica, um tanto fantasiosa, quando o assunto é o Palácio dos Bandeirantes.

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Desta vez, não se trata de construir o partido, obviamente. O caráter missionário da eleição para o governo de São Paulo agora está em “dar um palanque forte” para Lula, em busca de seu quarto mandato na Presidência, no maior colégio eleitoral do país. Em nome dessa “causa”, outros interesses político-eleitorais menos nobres e até mesquinhos estão sendo escamoteados ou, em sentido contrário, legitimados.

O PT e as demais forças que apoiam Lula possuem incríveis quatro nomes eleitoralmente consistentes para encampar a tal “missão”. Fernando Haddad (PT), ministro da Fazenda, Geraldo Alckmin (PSB), vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Comércio e Indústria, Simone Tebet (MDB), ministra do Planejamento, e Mário França (PSB), ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte. Deles, apenas o último, considerado um “franco atirador”, diz querer se candidatar ao governo de São Paulo neste ano. Essa é uma das poucas verdades desse jogo.

As razões de cada um dos demais nomes para aceitar, recusar ou empurrar o outro para a “missão” estão inseridas em estratégias complexas que não passam apenas pela possibilidade de vencer a eleição para o governo de São Paulo. No horizonte delas está, sobretudo, o fim da Era Lula, previsto pelo grupo para acontecer apenas em 2030.

Não por acaso, Márcio França é o único dos nomes colocados até agora na lista que não é lembrado quando o assunto é Palácio do Planalto. Haddad, Alckmin e Simone Tebet já disputaram a eleição presidencial e, segundo quem convive com os quatro, ainda alimentam sonhos de ser presidente do Brasil. Portanto, a eleição para o governo de São Paulo neste ano não pode deixar de ser analisada sob a ótica de 2030, até porque o próprio governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) também faz parte desse jogo.

Nesse sentido, a vitória em São Paulo será o trampolim que automaticamente lançará o próximo governador à condição de um dos favoritos para a eventual sucessão de Lula, e Tarcísio sabe muito bem disso. O problema da centro-esquerda é que o raciocínio corrente hoje nos bastidores da política nacional é de que o PT e seus aliados possuem poucas chances de êxito na luta pelo Bandeirantes. Ou seja, nesse cenário, os cálculos passam a levar em consideração, principalmente, os impactos da derrota no futuro político de cada um dos citados.

A pergunta feita hoje nos bastidores é: quem tem mais a perder em São Paulo? Para Haddad, derrotado por Tarcísio em 2022, um novo revés, com ou sem segundo turno, o deixará sem mandato e ainda mais dependente de Lula e do PT na caminhada para 2030. Geraldo Alckmin, que já governou São Paulo por quatro mandatos, sabe que nem a vitória no estado é garantia de sucesso eleitoral na disputa pela Presidência, a derrota, então…

Não por outros motivos, ambos, apesar de serem os mais fortes eleitoralmente, são os mais receosos em concorrer neste ano e, reservadamente, dizem que podem desistir da vida pública para escrever livros, no caso de Haddad, que acaba de lançar “Capitalismo superindustrial: Caminhos diversos, destino comum” (Cia. das Letras), ou cuidar do sitiozinho da família em Pindamonhangaba, no caso de Alckmin. É um recado cifrado para aqueles “aliados” que trabalham diuturnamente para empurrar ambos rumo ao cadafalso da eleição em São Paulo com o objetivo de limpar a pista para 2030.

Em direção oposta, Simone Tebet é quem tem mais a ganhar e, consequentemente, menos a perder se for a escolhida do presidente para a “missão”. A ministra foi a novidade da eleição presidencial de 2022, mas ficou um tanto escondida na Esplanada lulista nos últimos três anos. Uma boa campanha que chegue ao segundo turno neste ano fornecerá boas condições de ela se projetar ainda mais nacionalmente, mantendo-se como força alternativa para 2030.

Mais ainda: Tebet, como Alckmin, reúne condições de furar a bolha esquerdista em São Paulo e caminhar na direção de uma parcela expressiva do eleitorado do interior paulista que hoje não pode ouvir falar em PT e em Lula, mas que já elegeu prefeitos do partido em grandes centros como Campinas, São José dos Campos, Ribeirão Preto, Araraquara e São Carlos. Ou seja, não pode ser descartada a possibilidade de ela vencer a eleição. Por fim, a ministra, com um vice petista, ajudará o partido a se renovar no estado onde nasceu e floresceu.

Para além de nomes, no entanto, o PT, que gosta muito de falar em “projetos de Estado” e cobrar seus adversários nesse sentido, precisa decidir se tem alguma ideia nova para São Paulo ou se quer apenas dar um “palanque para Lula” no maior colégio eleitoral do país. Precisa decidir se quer fazer uma campanha eleitoral de frente ampla, caminhando para o centro e dialogando com setores diversos da sociedade, ou se quer garantir os tradicionais 35% do eleitorado paulista que costuma votar no partido,

Caso prevaleçam as segundas opções, Fernando Haddad e Geraldo Alckmin permanecerão cobertos de razão se, em algum momento, optarem por escrever livros ou capinar a roça em Pinda em vez de disputar o Palácio dos Bandeirantes.

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Não é bem assim

Apesar da narrativa petista dizer que a candidatura de Lula ao governo em 1982 tinha por objetivo apenas fortalecer o partido, muitos acreditavam que o então líder sindical tinha boas chances de ser eleito. O próprio candidato, segundo depoimentos de quem conviveu com ele nessa época, compartilhava dessa crença e manteve as esperanças até a véspera da eleição.

De camarote

No jogo para 2030, Guilherme Boulos, ao menos por ora, é o único que já botou todas as suas fichas na mesa: aposta na reeleição de Lula e na sua permanência como ministro para se cacifar com uma opção forte da esquerda para sucessão presidencial.