O início da vacinação de profissionais de saúde contra a dengue com a Butantan-DV, desenvolvida pelo Instituto Butantan (IB), nesta segunda-feira (9/2), seria uma ótima publicidade para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), em ano de eleição. Desenvolvida pelo Butantan ao longo de 15 anos e produzida em parceria com a chinesa WuXi, a Butantan-DV é um avanço médico e uma vitória para o instituto: é a primeira do mundo em dose única e protege contra os quatro sorotipos da dengue.
Mas, embora tenha sido convidado e tivesse presença esperada, Tarcísio não participou do evento para não dividir palco com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que fez o anúncio de 1,4 bilhão de investimento do governo federal no Butantan.
O orçamento será investido nas fábricas de produção de vacinas e soros do Butantan, ampliando a capacidade de produção do instituto.
Com o dinheiro vindo do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o investimento feito no Instituto Butantan para a produção de soros e vacinas e a incorporação da Butantan-DV no Programa Nacional de Imunização (PNI) são vitrines para Lula, que tem apostado nos investimentos em saúde e ciência como um dos trunfos de sua gestão.
A Fundação Butantan também deve fazer um aporte de aproximadamente R$ 450 milhões, totalizando mais de R$ 1,8 bilhão de investimento.
O instituto vai construir uma fábrica de vacina tetravalente contra o Papilomavírus Humano (HPV), reformar a unidade de produção e desenvolvimento de vacinas com a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) para produção do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), construir uma nova fábrica para produção do IFA da vacina DTPa (difteria, tétano e coqueluche), reformar o prédio de produção de soros e criar uma nova área de envase e liofilização do produto.
Para o evento nesta segunda, Tarcísio enviou o secretário estadual de Saúde, Eleuses Paiva (PSD), para representar o governo estadual. O diretor do IB, Esper Kallás, e outras autoridades de saúde também participaram.
Já Lula fez o anúncio do investimento ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e dos ministros Alexandre Padilha (Saúde), Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário) e Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência).
O presidente falou brevemente e aproveitou para criticar quem defende a privatização.
“Existe um setor da sociedade que fica fazendo apologia do setor privado e tentando destruir o setor público”, disse Lula. “Quem investe em pesquisa nesse país se não é o setor público? Quem é que faz inovação neste país se não é o investimento público.”
Relação com os EUA e a China
O presidente também falou sobre a relação com os EUA. “Não quero briga com o Trump, não sou louco”, disse Lula. “A briga do Brasil é pela construção da narrativa. Nós queremos mostrar a importância do multilateralismo. Não quero ter supremacia sobre o Uruguai ou a Colômbia. Mas também não quero ser menor que os EUA”, afirmou.
“Não estamos escolhendo entre os EUA e a China. Estamos escolhendo o que é melhor para o Brasil. Se a China consegue produzir mais vacinas para a gente, por que não fazer essa parceria?”
Padilha aproveitou o discurso no evento para lembrar da postura do governo Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19 e para criticar o governo Trump por fortalecer o movimento anti-vacina nos EUA.
O ministro da Saúde falou sobre a importância da vacina de HPV no combate ao câncer de colo de útero e destacou que a vacina de dengue está disponível a partir desta segunda para profissionais de saúde do Brasil todo.
Tabuleiro eleitoral
Na semana passada, Lula enviou recado para Tarcísio ao dizer, em entrevista ao UOL, que “Alckmin, pode ser convidado a participar de um projeto eleitoral em São Paulo” — ou seja, se o governador renunciar para concorrer à Presidência, seu grupo político pode perder o controle no estado, já que Alckmin é um nome altamente competitivo em São Paulo, onde foi governador por quatro mandatos.
A candidatura de Alckmin no estado, no entanto, é improvável e depende de dois fatores, de acordo com os analistas do JOTA Beto Bombig e Fabio MuraKawa. Um deles é a indicação de um vice para Lula pelo MDB ou PSD, com a condição de que o partido apoie Lula em âmbito nacional. O outro é justamente a viabilização de Tarcísio para concorrer à Presidência da República.
A preferência do Planalto, entretanto, é de que Lula concorra contra Flávio Bolsonaro e Tarcísio permaneça onde está.

