Vitória de Lula impõe a tarefa de reinventar a democracia brasileira

Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato, o Brasil pode estar caminhando para o fim de uma encruzilhada: a escolha entre o autoritarismo e a democracia. Quando Lula iniciou seu terceiro mandato, escrevi um texto neste espaço afirmando que a punição dos golpistas seria imperativa para a construção de uma nova república. De fato, durante os últimos quatro anos, o julgamento, bem como as punições para os envolvidos nos atos de 8 de janeiro, aconteceu. Embora seja verdade que isto não diminuiu a polarização política que sufoca o país, antes contribuindo para colocar mais lenha na fogueira, tampouco pode-se dizer que o combate judicial ao golpismo foi nada importante.

Prova disso é que as alegações de fraude levantadas pelo candidato-fugitivo Flávio Bolsonaro (PL), derrotado no pleito recém-encerrado, encontraram menos eco na direita do que havia ocorrido em 2022, quando o grupo político em torno de Jair Bolsonaro planejou a chamada “operação punhal verde e amarelo”, com o objetivo de assassinar Lula, seu então vice-presidente eleito Geraldo Alckmin e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.

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Existe também uma segunda camada de interpretação, igualmente considerável: a derrota de Flávio Bolsonaro por uma maior diferença de votos que a de seu pai—resultante de uma virada eleitoral inédita na Nova República—demonstra uma rejeição expressiva ao projeto autocrático bolsonarista. Passado o primeiro turno e frente à possibilidade concreta de se eleger alguém tão nocivo à democracia e investigado em diversos inquéritos da Polícia Federal, boa parte da população se mobilizou em uma ampla campanha de rejeição ao candidato da extrema direita, em ação comandada pelo deputado federal reeleito André Janones (Rede).

A gota d’água para desmoralizar de vez a candidatura de oposição foi a fuga de Flávio Bolsonaro após perder as eleições. O filho zero um parece repetir por meio de um novo roteiro os objetivos de seu pai em 2022: tal como há quatro anos, a decisão de não reconhecer os resultados da eleição dá indícios de fracasso devido não só à falta de carisma de Flávio, mas também por reforçar a imagem de alguém com culpa no cartório, ou, em outras palavras, de um ansioso foragido — papel que pode cair como uma luva em alguém que, com o fim do mandato de senador em 1º de fevereiro de 2027, vai perder o foro privilegiado.

Apesar do desgaste da imagem política do clã Bolsonaro, é preciso considerar que Lula enfrentará um grande desafio diante de um Congresso e Senado abertamente conservadores. No entanto, existe algo estranho no ar e o momento político pode se tornar realmente peculiar. Parte do Centrão considera que tem perdido lugar para uma extrema direita que, por sua vez, vem se tornando cada vez mais ideológica e politicamente desqualificada. Assim, esta vertente começou a considerar a possibilidade de se aliar ao governo e isolar a extrema direita.

Por outro lado, a enorme mobilização popular, em contraste com a apatia que tomou conta do primeiro turno, vem fazendo Lula reconsiderar sua forma de governar. É bem possível que apenas um complexo equilíbrio entre articulações com o Centrão e forte mobilização popular podem garantir a força necessária para isolar a extrema direita e, simultaneamente, impedir que o governo se renda a um populismo barato. Esta me parece ser a melhor forma de reinventar a democracia.

O Centrão, claramente, parece se inclinar mais pelo fisiologismo que por ideais democráticos. Mas ele é sempre sensível à forma como a política funciona e, principalmente, às manifestações populares. Este é um potencial que pode ser mobilizado pelo governo como forma de pressionar o Centrão que, por sua vez, pode obter reconhecimento popular e isolar o PL. Obviamente, como bons negociadores, os parlamentares do bloco mais amorfo da política nacional cobrarão seu preço.

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Evoco aqui, grosseiramente, o livro O ódio à democracia, do filósofo Jacques Rancière. O francês afirma que a democracia, desde os seus primórdios na Grécia Antiga, sempre sofreu ataques de detratores. Por outro lado, este sistema político não pode se sustentar apenas no voto, necessitando de se manifestar de forma substancial na vida das pessoas, gerando maiores oportunidades e qualidade de vida, tornando-se, ela própria, uma forma de existir no mundo.

As ruas oferecem ao governo e ao Centrão a oportunidade de um “novo pacto político” que, para funcionar, precisará tornar a democracia mais substancial, manifestada em um maior bem-estar para a população. A forma mais eficaz de combater a extrema direita é fazer com que as pessoas se sintam satisfeitas com a forma como a política vem sendo executada e não escolhendo o “menor dos males”. Passada a fase de punir os golpistas, torna-se necessário construir algo novo. Esse é o desafio do governo Lula 4.