Passados alguns dias do primeiro turno das eleições, é possível analisar a nova composição do Congresso Nacional do ponto de vista socioambiental. Já antecipando os resultados, o quadro será mais adverso para o meio ambiente.
Para fazer essa análise, partimos do Farol Verde, plataforma criada pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), que estimou o Índice de Convergência Ambiental de deputados e senadores na 57ª legislatura (2023-2026).
A partir desses dados, analisamos os parlamentares reeleitos em cada Casa e, em relação aos novatos, atribuímos a nota média de seu partido na legislatura que está terminando. Dessa forma, é possível ter uma visão geral da nova composição.
Dos 513 deputados federais eleitos em 2022, 410 disputaram a reeleição em 2026 e 296 conseguiram renovar o mandato, uma taxa de sucesso de 72,2%. Dos 114 que não se reelegeram, 98 ficaram como suplentes e 16 não foram eleitos. Outros 64 titulares disputaram outros cargos em 2026: 45 concorreram ao Senado, oito a deputado estadual, cinco a governador e seis a suplente de senador, vice-governador ou vice-presidente. Outros 36 não disputaram a eleição, e três tiveram a candidatura a deputado federal com votos anulados.
Além dos 296 titulares reeleitos, 15 suplentes que exerceram mandato durante a 57ª legislatura também se elegeram. Assim, 311 dos 513 deputados da nova Câmara (61%) já passaram pela legislatura atual, e 202 (39%) chegam pela primeira vez.
A renovação variou muito entre os partidos. As taxas mais altas são as do Novo, com 70% de bancada nova, seguido por PRD (60%), PV (57%) e Podemos (52%). No extremo oposto ficaram PDT (17%), Avante (20%) e PP (27%), sem contar Rede e Missão, que elegeram um deputado cada, ambos reeleitos. O PL, maior bancada da nova Câmara, tem 121 cadeiras, das quais 57 (47%) são de deputados novos.
O Índice de Convergência Ambiental (ICAt) dos titulares reeleitos é, em média, 46,2, abaixo da média da 57ª legislatura (47,2). Os que tentaram a reeleição e perderam tinham média mais alta: 48,5. Já os que disputaram outros cargos tinham ICAt médio de 40,8, e os que não disputaram, 40,3. Nas urnas, um bom desempenho ambiental no plenário não garantiu a reeleição.
Entre os 311 deputados que voltam, 310 têm ICAt calculado. A distribuição se concentra nos extremos, com poucos parlamentares no meio. Mais da metade (55,5%) tem ICAt de até 40, enquanto menos de um terço (31,6%) fica acima de 60. A faixa intermediária, de 40 a 60, abriga apenas 12,9% deles.
A nova Câmara terá 109 deputadas (21,2%), acima das 90 eleitas em 2022 (17,5%). Entre os estreantes, as mulheres são 23,8%. Entre os deputados que voltam, o ICAt médio das mulheres é 58,1, contra 44,0 dos homens.
Para estimar o ICAt da nova composição, cada deputado reeleito manteve o índice que obteve na 57ª legislatura, e cada estreante recebeu a média do seu partido. O resultado é um ICAt médio estimado de 46,3, ligeiramente abaixo dos 47,2 da legislatura atual.
A queda é pequena, mas tem direção clara. A parcela de cadeiras com ICAt de até 40 sobe de 55,0% para 57,1%, enquanto a parcela acima de 60 cai de 32,0% para 28,7%.
O principal motivo é a mudança no tamanho das bancadas: da queda de 0,9 ponto, cerca de 0,7 se explica só por isso. Na maioria dos partidos, o ICAt médio varia menos de três pontos. Cresceram justamente as bancadas menos alinhadas à pauta ambiental.
O PL passa da bancada atual de 98 para 121 deputados, com ICAt estimado de 22,5, e o Novo dobra de cinco para dez deputados, com o menor ICAt da Câmara, 14,9. Entre os partidos com ICAt alto, o PT ganha cinco cadeiras (ICAt 84,9) e o PSOL ganha uma (94,1). Perderam espaço partidos de centro, com ICAt entre 35 e 45: União e PSDB perderam seis cadeiras cada, e PSD e PP, cinco cada.



No Senado, o deslocamento é mais nítido
No Senado, há uma diferença estrutural importante em relação à Câmara: em 2026 estiveram em disputa apenas dois terços das cadeiras (54 de 81). As 27 cadeiras eleitas em 2022 seguem até 2031.
Dos 54 senadores eleitos em 2018, 31 tentaram a reeleição e 13 conseguiram, uma taxa de 41,9%, bem abaixo dos 72% da Câmara. Outros nove titulares disputaram cargos distintos: dois se elegeram governador, um deputado federal e dois primeiro-suplente de senador. Outros 14 não disputaram. Um suplente que havia assumido o mandato, Carlos Portinho (PL-RJ), também se reelegeu, o que totaliza 14 reeleitos.
Observa-se aqui um padrão inverso ao da Câmara: no Senado, os reeleitos tinham ICAt maior (41,6) que os que tentaram e perderam (35,5), ainda que os grupos sejam pequenos.
As 54 vagas eleitas em 2026 se dividem entre 14 reeleitos, 19 ex-deputados federais da 57ª legislatura (com ICAt médio de apenas 21,5 na Câmara) e 21 estreantes. O PL passa de 15 para 28 senadores e sozinho elegeu 19 das 54 vagas. O PSD cai de 14 para cinco.
O ICAt médio estimado do Senado cai de 32,3 para 30,1. Três em cada quatro cadeiras (75%) ficam com senadores de ICAt de até 40 (eram 72%), e a fatia acima de 60 recua de 21,5% para 17,3%. A nova composição terá 18 senadoras (22%, ante 15 hoje), 12 delas eleitas em 2026. O ICAt médio estimado das senadoras é de 38,5, contra 27,7 dos senadores.



O Congresso ficou mais alinhado à direita, com os avanços do PL em ambas as Casas e do Novo na Câmara. O centrão diminuiu, enquanto o campo progressista se manteve semelhante.
Resta saber como essa nova composição irá responder às emergências climáticas, que ocorrem com frequência cada vez maior, e quais serão as políticas públicas elaboradas para se pensar preservação e desenvolvimento sustentável.

