O resultado obtido nas urnas por Flávio Bolsonaro (PL) contra Lula (PT) no primeiro turno da eleição presidencial empoderou o filho mais velho de Jair Bolsonaro para negociar apoios com Michelle Bolsonaro (PL), casada com seu pai, e com Tarcísio de Freitas (Republicanos), afilhado político do ex-presidente.
Flávio não está em condições de recusar apoios, pois o segundo turno será disputado voto a voto. No entanto, conforme suas chances de vitória aumentaram, ele se tornou menos dependente, digamos assim, do governador de São Paulo e da senadora eleita pelo Distrito Federal para vencer a eleição e assumir a Presidência.
A partir de agora, o dilema central para Tarcísio e Michelle é claro: aliar-se a Flávio e tomar parte na sociedade de sucesso em uma eventual vitória ou arcar com parte da culpa em caso de derrota. Isso porque, nos bastidores e no mercado financeiro, cresce a percepção de que Flávio pode se eleger mesmo sem o engajamento total de ambos na campanha do segundo turno. Até porque tanto a senadora eleita quanto o governador terão de fazer gestos de apoio ao candidato do PL.
O que está em questão é a intensidade desse engajamento. Tarcísio e Michelle são sempre lembrados quando o assunto é eleição de 2030. Ambos saíram do primeiro turno na condição de futuros presidenciáveis, especialmente o governador de São Paulo, reeleito, com votação expressiva.
Pela lógica da política brasileira, uma vitória de Flávio neste ano será um empecilho para os caminhos de Tarcísio e de Michelle rumo ao Planalto, pois, diferentemente de Lula, o candidato do PL terá direito a concorrer à reeleição em 2030. Não por outro motivo, o senador, dia sim, outro também, tem afirmado que, uma vez na Presidência, ficará apenas um mandato no cargo.
Também pela mesma lógica da política nacional, é difícil acreditar nessa promessa. Tarcísio e Michelle sabem disso e, no primeiro turno, atuaram com parcimônia em favor de Flávio, especialmente a ex-primeira-dama. As justificativas, em linhas gerais, eram que precisavam cuidar das próprias campanhas – argumento que não pode mais ser usado.
Em São Paulo, a participação de Tarcísio pedindo votos para Flávio na reta final do primeiro turno coincidiu com o estirão do candidato do PL nas pesquisas no estado, comprovado pelo resultado das urnas: o senador obteve 51,93% dos votos válidos contra 38,20% de Lula.
Portanto, é quase inegável que Tarcísio pode continuar fazendo a diferença a favor de Flávio, que negocia com o governador um pacote de eventuais nomeações para uma futura gestão no Planalto. Está na mesa, inclusive, a possibilidade de indicação de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Michelle não está à frente de uma importante máquina pública como o governo de São Paulo, mas sua liderança à frente de movimentos evangélicos e de mulheres conservadoras é um ativo precioso para Flávio neste segundo turno. A ela também serão oferecidos papel de destaque e postos importantes em um eventual futuro governo do PL.
O mais importante é que Tarcísio, com 51 anos de idade, e Michelle, com apenas 44 anos, têm a perspectiva de uma longa carreira política pela frente. Mesmo que a promessa de fim da reeleição para presidente feita por Flávio não for cumprida, os dois permanecerão como ativos eleitorais do campo conservador para eleições futuras.
Nesse sentido, parece mais inteligente ser sócio na vitória e se fortalecer institucionalmente e politicamente para as futuras disputas. Até porque, no caso de Tarcísio, a história recente mostra que romper com o bolsonarismo costuma não ser uma boa ideia.
Tarcísio demonstrou maturidade
As urnas confirmaram que Tarcísio sempre esteve certo e demonstrou maturidade política: trocar uma reeleição garantida em São Paulo pelo risco de romper com os Bolsonaros para bancar uma candidatura ao Planalto seria uma aposta de alto risco. O governador demonstrou na prática que conhece e respeita a força do bolsonarismo.
Se tivesse optado pelo enfrentamento, Tarcísio provavelmente dividiria os votos da direita com Flávio e um dos dois ficaria fora do segundo turno. Foi melhor permanecer com mandato em São Paulo e se manter como um player importante na política nacional.

