A presença das mulheres na liderança política fortalece a democracia e torna as instituições mais representativas, colocando as demandas delas no centro das decisões governamentais. No Brasil de 2026, as mulheres continuam sendo a maior força nas urnas. Após a eleição da primeira mulher presidente em 2010, porém, há retrocessos importantes. Este ano será a primeira eleição presidencial do século sem mulheres nas chapas dos principais partidos considerados competitivos.
Um sinal importante de esperança é o aumento expressivo no número de candidatas mulheres aos cargos de executiva estadual e de senadora estadual em 2026. Para entender melhor essas dinâmicas, é importante comparar as tendências de 2026 com as de 2022, pois, como já discutimos nesta coluna, há uma continuidade significativa das disputas da eleição anterior.
Mulheres e a baixa representação nos governos estaduais
Em 2022, 38 mulheres disputaram o cargo de governadora, em um universo de 224 candidaturas. Ou seja, apenas 17% dos candidatos aos governos estaduais eram mulheres. Pernambuco e Minas Gerais foram os estados com mais candidatas. O PSOL foi o partido que mais lançou candidatas, mas em oito estados não houve sequer uma candidatura feminina.

As eleições de 2022 foram um marco inédito na política brasileira: pela primeira vez, uma chapa formada exclusivamente por mulheres venceu a disputa por um governo estadual. Raquel Lyra, então no PSDB, e Priscila Krause, então no Cidadania, foram eleitas em Pernambuco, e Lyra tornou-se a primeira mulher a governar o estado. No entanto, além de Lyra, apenas Fátima Bezerra (PT) foi eleita governadora naquele ano, reeleita no Rio Grande do Norte.
Das 27 unidades da federação, somente duas passaram a ser comandadas por mulheres. Hoje, porém, o país tem cinco mulheres à frente de governos estaduais, o maior número da história. Três delas eram vice-governadoras e assumiram o cargo depois que os titulares renunciaram: Celina Leão (PP), no Distrito Federal; Hana Ghassan (MDB), no Pará; e Mailza Assis (PP), no Acre.
Em 2026, a participação de candidatas mulheres ao cargo de governador aumentou de 17% para 17,4%. Em números absolutos, porém, houve queda, já que a disputa como um todo encolheu, com menos candidaturas registradas: são 35 candidatas entre 201 candidatos. O partido com mais candidaturas é o Unidade Popular (UP).

As pesquisas estimuladas de intenção de voto para 2026, da Quaest e, no caso do Piauí, do Datafolha, mostram um cenário semelhante ao de 2022. As candidatas lideram em apenas três estados, cerca de 15%: Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco; Professora Dorinha (União), no Tocantins; e Celina Leão (PP), no Distrito Federal. Mesmo entre elas, somente Celina Leão tem chances de vencer no 1º turno. Em Pernambuco, Raquel Lyra aparece tecnicamente empatada com João Campos (PSB). No Pará, a atual governadora, Hana Ghassan (MDB), está em segundo lugar, sem empate técnico com o líder, Daniel Santos (Podemos).
As esperanças estão no Senado?
Em 2022, a eleição renovou um terço do Senado, ou seja, 27 das 81 cadeiras. Das 242 candidaturas, 58 eram de mulheres (24%), proporção maior que a registrada nas disputas pelos governos estaduais, na época. Em dois estados, Mato Grosso e Roraima, apenas homens concorreram. Rio Grande do Sul, Tocantins e Distrito Federal concentraram o maior número de candidatas, e os dois últimos elegeram mulheres senadoras: Professora Dorinha (União) e Damares Alves (Republicanos), respectivamente. Mais uma vez, o PSOL foi o partido com mais candidatas.

Entretanto, ao fim da corrida eleitoral de 2022, apenas quatro das 27 cadeiras ficaram com mulheres (14,8%), contra 23 conquistadas por homens. Além de Dorinha e Damares, foram eleitas para o mandato de oito anos Teresa Leitão (PT), por Pernambuco, e Tereza Cristina (PP), por Mato Grosso do Sul. Hoje, a Casa reúne 15 senadoras, incluindo as suplentes que assumiram as cadeiras desde então, o que ainda assim corresponde a menos de 20% das vagas.
Em 2026, a proporção de candidatas ao Senado caiu, embora o número absoluto tenha aumentado. Como a eleição deste ano renova dois terços da Casa, estão em disputa 54 cadeiras e 70 mulheres concorrem, o equivalente a 21,9% das candidaturas. Todos os estados têm ao menos uma candidata.
No Rio Grande do Norte, Santa Catarina e São Paulo está concentrado o maior número de mulheres na disputa. Entre os partidos, o Unidade Popular (UP) também lidera em número de candidaturas femininas ao Senado, assim como lidera nas candidatas aos governos estaduais.

Nas pesquisas de intenção de voto de 2026, o desempenho de candidatas ao Senado merece destaque. Segundo as pesquisas da Quaest e, no caso do Piauí, do Datafolha, as candidatas lideram a corrida pela primeira vaga em 41% dos estados. Em Rondônia, Silvia Cristina (PP), segunda colocada, empata tecnicamente com o líder, Dr. Fernando Máximo (PL). A disputa também está aberta pela segunda vaga.
No Ceará, Luizianne Lins (Rede), em terceiro lugar, está tecnicamente empatada com o segundo colocado, Capitão Wagner (União). Em Roraima, o mesmo ocorre entre Helena da Asatur (PSD), terceira colocada, e Nicoletti (PL), segundo colocado.
Se esses resultados se confirmarem nas urnas, as mulheres formarão a maior bancada feminina já eleita no Senado. A bancada feminina pode chegar a 19 senadoras, contando com as atuais parlamentares e as que disputam a reeleição — o que representaria 23,6% das cadeiras.
Apesar dos avanços, ainda não há paridade de gênero
Apesar de constituírem a maioria do eleitorado brasileiro (83.877.126 eleitoras, ou 53% do total, segundo dados do TSE), as mulheres continuam distantes da paridade na representação política. O Senado pode ter, em 2026, a maior bancada feminina de sua história.
O movimento acontece em um contexto em que partidos, à esquerda e à direita, passaram a apostar em nomes de maior projeção, enquanto a Casa ganha peso na relação entre os Poderes, em meio à crise envolvendo o STF. Nos governos estaduais, porém, o cenário ainda se mantém estagnado: as mulheres continuam abaixo de 18% das candidaturas e lideram em apenas três estados.
O possível recorde no Senado reflete um fortalecimento das candidaturas femininas na liderança política do Brasil? As evidências da eleição de 2026 sugerem que as mulheres ganham espaço quando o contexto é favorável, como em uma eleição com duas vagas por estado e com nomes já conhecidos pelos eleitores. Por outro lado, as mulheres candidatas seguem com dificuldade para chegar ao comando do Executivo estadual.
Ao contrário das eleições proporcionais, as leis não exigem que os partidos preencham um mínimo de 30% e um máximo de 70% de candidaturas para cada gênero nas disputas para Senado ou para cargos executivos. Considerando este contexto, os desafios continuam nas próximas eleições, pois sabemos que ampliar o número de candidatas não garante, por si só, condições de competição equivalentes.
O acesso a recursos, a estrutura partidária e o apoio necessário para tornar uma candidatura competitiva continuam desiguais. Assim, se a eleição de 2026 confirmar aumento de mulheres no Senado, o resultado será relevante, ainda que insuficiente.

