Duas pesquisas feitas no Brasil com poucos meses de distância chegam a retratos opostos da inteligência artificial. O Índice Reglab de Confiança e Segurança na Economia Digital, aplicado a 1.103 pessoas da população conectada em junho de 2026, encontra 84,4% de reconhecimento das ferramentas de IA generativa entre as classes D e E.
A TIC Domicílios 2025, do Cetic.br/NIC.br, entrevistou 24.535 indivíduos em 27.177 domicílios, presencialmente, com amostra probabilística. Ela mostra que 16% dos usuários de internet das classes DE usaram alguma ferramenta de IA generativa nos três meses anteriores. Além disso, apontou que, entre os que não usaram, 59% apontam desconhecer que essas ferramentas existem, o que equivale a cerca de metade dos usuários de internet desse recorte.
De um lado, o reconhecimento quase universal; de outro, o desconhecimento declarado de metade da amostra. Entretanto, perguntar qual resultado está correto é a indagação errada.
As duas pesquisas medem coisas diferentes: reconhecer um nome numa lista é um teste simples que existe em pesquisa de opinião; o uso efetivo em três meses é mais exigente. Há, ainda, uma diferença mais relevante, que diz respeito à população. Um painel online de adesão voluntária alcança quem está conectado o bastante para se cadastrar, permanecer e responder por incentivo.
É aí que está inserido e onde se pergunta sobre a percepção de confiança nas redes na pesquisa do Índice Reglab. A pesquisa domiciliar alcança um grupo diferente: quem atende à porta. Ambas falam de “classes D e E” e ambas olham para gente conectada, mas ocupam pontos distintos do mesmo gradiente de engajamento digital.
Essa distância mede quanto de uma tecnologia já desceu a pirâmide social. E a resposta, no caso da IA, é: pouco.
A TIC mostra essa nuance com bastante nitidez. O uso de IA generativa entre usuários de internet é de 69% na classe A, 52% na B, 32% na C e 16% nas classes D/E. Por escolaridade, vai de 59% no Ensino Superior a 17% no Fundamental. Na área urbana, 34%; na rural, 18%.
Não há surpresa em uma tecnologia nova aparecer primeiro no topo da pirâmide social; o que merece atenção é o tempo de difusão. O acesso domiciliar à internet levou cerca de 20 anos para ir de minoria a 86% dos domicílios, com as classes DE hoje em 73% e a classe A em 100%. A IA generativa está hoje, na base da pirâmide, exatamente onde a internet estava em 2015: os mesmos 16%. Se a descida seguir esse ritmo, a conta é de, pelo menos, uma década.
O Índice Reglab permite observar essa cronologia de outro ângulo, porque acompanha cinco categorias de plataforma em estágios diferentes de difusão. Em cada uma delas dá para comparar quantas pessoas das classes A e B dizem conhecer aquelas plataformas e quantas das classes C, D e E dizem o mesmo. A diferença entre os dois grupos mede o quanto a classe social ainda separa quem sabe que aquilo existe.
No streaming, a diferença é zero: Netflix e YouTube são igualmente conhecidos em todos os recortes. No governo digital, ela é de 1,1 ponto porcentual; nas redes sociais, 1,8 ponto; na economia de plataforma, 2,9. Na inteligência artificial, 6,1 — 90,7% de reconhecimento nas classes A e B contra 84,6% nas classes C, D e E.
Nas quatro primeiras categorias o reconhecimento saturou e a classe deixou de discriminar. Só na IA o degrau persiste no estágio inicial da difusão, que é saber que a coisa existe.
É o padrão que Comin e Mestieri (2018) descrevem para o século 20: as tecnologias passaram a chegar cada vez mais rápido a todo lugar, enquanto a intensidade de uso divergia. O que separa ricos e pobres não é mais a chegada, é quanto se usa delas depois.
O Cetic perguntou a quem não usou IA por que não usou, e a resposta desmonta a leitura de que se trata apenas de uma questão de preferência. No conjunto dos usuários de internet que não usaram a tecnologia, os motivos citados foram falta de interesse ou necessidade (76%), preocupações com segurança ou privacidade (63%), falta de habilidade para usar esse tipo de ferramenta (58%) e falta de conhecimento de que essas ferramentas existem (52%).
Quando se analisa por escolaridade, a diferença fica clara: no topo, não usar IA é decisão — a pessoa conhece a ferramenta, sabe operá-la e simplesmente concluiu que não precisa dela. Na base, quatro obstáculos atuam ao mesmo tempo. Entre quem tem Ensino Superior, o motivo que domina é o desinteresse, 87%, e o desconhecimento da existência aparece em apenas 30%. Entre quem tem Ensino Fundamental, os quatro motivos ficam praticamente empatados: 66% de desinteresse, 65% de falta de habilidade, 64% de privacidade e 63% de desconhecimento.
Para a política pública, a consequência é que agir sobre o acesso — o reflexo herdado das duas décadas em que o problema era levar internet até a porta — deixou de bastar. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, sob o lema “IA para o Bem de Todos”, não é silencioso quanto à base da pirâmide social: promete uma campanha de conscientização que alcance 30% da população adulta em três anos e 85% com conhecimento básico sobre IA em cinco, e reserva sua ação mais concreta voltada explicitamente à baixa renda a uma plataforma que usa IA para mapear necessidades de quem está no CadÚnico e oferecer cursos e vagas.
Mas as duas iniciativas não resolvem a questão do uso. Uma trata de conhecimento, isto é, saber que a IA existe, entender seus riscos, e é justamente o degrau que a difusão fecha primeiro, o de entrada; a outra faz da base beneficiária de um serviço movido a IA, não usuária da ferramenta. E essa segunda é a marca de toda a camada de ações imediatas do plano: a IA atende o cidadão da base sem torná-lo usuário dela (sistemas que apoiam professores e gestores contra a evasão escolar, um chatbot que orienta o produtor rural, outro que responde ao cidadão no consulado).
Nenhuma das duas opções fecha a distância que a TIC localiza com nitidez, e que diverge: ela está na intensidade de uso, e ser atendido por um sistema de IA não é operar a ferramenta, assim como saber que ela existe não é usá-la.
A isso soma-se um problema de desenho. A meta de conscientização é agregada — 85% da população adulta —, e não um piso para as classes D e E: como o topo já beira a saturação, o índice nacional pode ser cumprido com a base ainda para trás. E os recursos seguem outra direção: dos R$ 23 bilhões do plano, 59,9% vão para inovação empresarial e 25,2% para infraestrutura, contra 5% para difusão, formação e capacitação — da qual a literacia digital da população é apenas uma fração.
Limitada a esse desenho, a IA repetirá a cronologia da internet — uma década ou mais para descer — e chegará embaixo depois que o ganho de produtividade já tiver sido capturado no alto. A pergunta relevante não é se a IA vai descer a pirâmide, mas se descerá antes de a distância entre o topo e a base se converter em vantagem consolidada para quem já está no topo da pirâmide.
BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024–2028: IA para o bem de todos. Brasília: MCTI, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/transformacaodigital/plano-brasileiro-de-inteligencia-artificial. Acesso em: 21 ago. 2026.
COMIN, D.; MESTIERI, M. If technology has arrived everywhere, why has income diverged? American Economic Journal: Macroeconomics, v. 10, n. 3, p. 137–178, 2018.
PALANCA, T.; RAMOS, P. H. Índice Reglab de Confiança e Segurança na Economia Digital. Edição 1 – 2º trimestre de 2026. São Paulo: Reglab, 2026. Disponível em: https://reglab.com.br/indice-reglab-confianca-seguranca-economia-digital-relatorio1/. Acesso em: 21 ago. 2026.
TIC Domicílios 2025 (Cetic.br/NIC.br): 27.177 domicílios e 24.535 indivíduos, entrevistas presenciais entre março e setembro de 2025. Disponível em: https://cetic.br/pt/pesquisa/domicilios/analises/. Acesso em: 21 ago. 2026.

