Na convenção estadual do Republicanos em São Paulo, o presidente nacional do partido, Marcos Pereira, foi o mestre de cerimônias de uma “homenagem” às presenças femininas no evento. Ao discursar, o bispo licenciado da Igreja Universal afirmou ser “mentira” que os conservadores não protegem as mulheres. No mesmo palco, o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), candidato à reeleição, também destacaram as presenças femininas no encontro.
A convenção do partido, um dos mais conservadores do atual espectro ideológico brasileiro, ilustra à perfeição a importância que a agenda das mulheres passou a ter para a direita nas eleições deste ano. De acordo com as estatísticas oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o eleitorado feminino representa mais da metade da proporção total de pessoas aptas a votar no país.
Segundo a mais recente pesquisa Datafolha, na disputa presidencial, entre as mulheres, Lula (PT) tem 51% das intenções de voto. Flávio aparece no recorte por gênero com 38%. Entre os homens, há empate técnico: 48% para o candidato do PL e 43% para o petista. Em uma disputa que promete ser bastante apertada, especialistas apontam que o voto feminino pode ser decisivo, o que fez a direita “despertar” para o assunto.
De acordo com Bianca Gonçalves e Silva, advogada, integrante do coletivo Elas Pedem Vista e do Observatório de Violência Política contra a Mulher, por mais que pautas relacionadas à participação política das mulheres tenham sido historicamente associadas a setores da esquerda, hoje em dia o fenômeno não é restrito a esse espectro político.
“A direita também já percebeu que o eleitorado feminino é plural e que as lideranças femininas podem dialogar muito bem com agendas conservadoras e ocupar esses espaços de protagonismo”, diz Bianca. Ela cita como exemplo a forte atuação da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro à frente do PL Mulher.
Após a vitória de Lula sobre Bolsonaro em 2022 com o voto determinante do eleitorado feminino a favor do petista, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, ofereceu à ex-primeira-dama a missão de organizar a agenda das mulheres. Segundo o partido, Michelle percorreu capitais e cidades do interior do país para filiar novas lideranças e incentivar suas candidaturas.
“Michelle conseguiu reunir, incentivar e trazer mais mulheres para a política, mostrando que podemos ocupar espaço sem abrir mão dos nossos valores. Sua liderança motivou candidaturas por todo o país e fortaleceu a ala feminina do partido. Tal mobilização será muito importante para as eleições de 2026. Arrisco até a dizer que será decisiva”, afirma Rosana Valle, deputada federal e presidente da executiva do PL Mulher de São Paulo.
“Como vereadora e como mulher, enxergo na Michelle um convite para que mais mulheres ocupem espaços com firmeza, leveza e brilho no olhar”, diz Malu Fernandes, vereadora em Mogi das Cruzes (SP) e vice-presidente da executiva do PL Mulher de São Paulo. “Ela mostrou a um país inteiro que dá pra caminhar na vida pública sem deixar para trás a fé, a família e aquilo em que se acredita”, completa, em uma referência ao fato de Michelle ser evangélica praticante.
Em 2022, Marcos Pereira filiou ao Republicanos Damares Alves, ex-ministra do governo Bolsonaro que seria eleita senadora naquele mesmo ano. Assim, como Michelle, ela exerce um papel de liderança no partido, cuja seção dedicada à agenda feminina é o Mulheres Republicanas, que vem crescendo com o incentivo direto da direção partidária.
Neste ano, Ivani Vaz de Lima, ex-vice-prefeita de São José do Rio Preto (SP), se filiou ao Republicanos junto com seu marido, José Carlos Vaz de Lima. Ambos são duas importantes lideranças conservadoras do interior paulista. O casal compartilha da mesma fé evangélica reformada e construiu sua trajetória pessoal e familiar com base nesses valores religiosos.
“Há espaço para todas as mulheres na política porque há muito o que ser feito. Temos que ampliar a nossa voz, e os partidos são fundamentais nesse sentido. A agenda feminina é de todas as mulheres e de todos os homens que reconhecem sua importância”, diz Ivani, que neste ano trabalhará pela reeleição de Tarcísio de Freitas.
Segundo ela, o governador de São Paulo deu um bom exemplo à sociedade ao contar com várias mulheres em seu secretariado e confirmar o que diz Marcos Pereira: os conservadores estão atentos às mulheres. “Isso é ampliação de espaços. As mulheres são competentes para cuidar de tudo, inclusive de áreas sensíveis e importantes”, diz.
Tarcísio chegou a ter quase 30% de seu primeiro escalão formado por mulheres, entre elas, a “super secretária” Natália Rezende (Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística), a secretária de Comunicação, Laís Vita, e Valéria Bolsonaro, de Políticas para as Mulheres.
Submissão, protagonismo e ‘marxismo’
Tathiana Chicarino, cientista política e coordenadora do curso de graduação em Sociologia e Política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), diz que “no posicionamento dessas mulheres conservadoras de extrema direita, muitas vezes, o protagonismo está submisso à figura masculina”.
“E aí, a gente vai ver, em campanhas eleitorais, estereótipos como o da mãe sendo utilizados. ‘Ah, a política é mãe? Então, se ela é uma boa mãe, ela pode ser uma boa prefeita, porque ela cuida’, coisas assim. Essa invasão da vida privada é imensa e muito distinta do que acontece com os homens”, afirma ela.
Malu Fernandes tem visão diferente da apresentada por Tathiana. “O interesse da mulher conservadora na política é, no fundo, muito concreto. Ela quer segurança para criar os filhos, liberdade para trabalhar e empreender, respeito às suas convicções e à sua fé, e um poder público que a trate como protagonista da própria vida, não como tutelada”, diz.
Em junho deste ano, o influenciador Paulo Figueiredo, apoiador de Flávio Bolsonaro, afirmou que a mulher “vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras, as casadas costumam acompanhar o marido”.
A declaração foi dada na esteira de comentários críticos sobre a atuação de Michelle no PL Mulher. Segundo ele, a ex-primeira-dama estaria replicando uma “ideologia marxista” na direita brasileira.
“A agenda das mulheres é maior do que qualquer sigla e não pertence exclusivamente à direita, à esquerda ou ao centro. O eleitorado feminino, afinal, é diverso, formado por diferentes realidades, prioridades e visões de mundo”, diz Rosana. Na opinião dela, neste ano, não haverá um projeto nacional competitivo que possa tratar o voto feminino como coadjuvante. “As mulheres estarão no centro da decisão.”
Em seu discurso na convenção do Republicanos, a principal ideia que Flávio Bolsonaro apresentou para as mulheres foi, na verdade, uma proposta de segurança pública: alterar a legislação brasileira para que menores de idade, a partir de 14 anos, respondam como adultos em casos de estupro. Segundo ele, a medida é necessária para que o infrator “responda como alguém grande” diante da gravidade do crime contra crianças ou mulheres.
Rosana Valle, no entanto, tem uma compreensão mais ampla do assunto. “As mulheres conservadoras querem que seus valores, suas prioridades e suas escolhas sejam respeitados no debate político. Estamos falando de mulheres que valorizam temas como família, segurança, liberdade, proteção à maternidade e o direito de participar ativamente da educação dos filhos de acordo com seus princípios”.
Segundo a deputada, reduzir a mulher conservadora às chamadas pautas de costumes seria um erro. “Ela também está preocupada com emprego, renda, saúde, educação, violência, custo de vida e com as oportunidades que seus filhos terão no futuro. Em outras palavras, os valores e a vida cotidiana não estão separados”, diz.

