Casas Bahia, blusinhas e 6×1 levam campanha para a rotina do eleitor

A campanha teve início oficialmente no último domingo (16/8), e a eleição começa a mudar de eixo. Até aqui, a disputa foi dominada por identidades, biografias e conflitos institucionais. Nada disso desaparecerá. Mas, com os candidatos já nas ruas e o pedido de voto autorizado, o centro de gravidade se desloca um pouco do embate ideológico para a vida concreta.

O novo terreno tem três endereços principais: o supermercado, o trabalho e o consumo. Flávio Bolsonaro (PL) explora o desgaste do governo, diante dos preços altos. O presidente Lula (PT) prepara uma defesa e acredita ter números e propostas para rebater o adversário. As duas campanhas, portanto, tentam falar ao eleitor por caminhos diferentes.

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Flávio já percorreu o supermercado comparando preços atuais com os de 2019, lançou o desafio de montar um churrasco com R$ 100 e estimulou seguidores a filmar o que conseguem comprar. Nesta semana, gravou diante de uma loja fechada das Casas Bahia para associar a crise do varejo à política econômica do governo. A narrativa é a de que o dinheiro rende menos, as empresas fecham e a culpa é de Lula.

O presidente, por sua vez, se apega aos dados. O IPCA de julho ficou em 0,07%, e a inflação acumulada em 12 meses recuou para 4,44%. Alimentação e bebidas tiveram deflação de 0,67%, enquanto a comida consumida em casa ficou 1,14% mais barata, na segunda queda mensal consecutiva. Em 2022, último ano de Jair Bolsonaro, o IPCA fechou em 5,79%, e alimentação e bebidas subiram 11,64%. Há, portanto, material para uma contraofensiva.

O problema é que o consumidor paga preços, não taxas de variação. A inflação menor mede a desaceleração dos aumentos; não devolve automaticamente o arroz, o café ou a carne ao valor de anos atrás. Essa é a desvantagem estrutural do incumbente. Flávio precisa exibir a conta. Lula precisa explicar por que ela continua alta e convencer o eleitor de que a situação está melhorando.

Ao rebater Flávio, o campo petista trocou a comparação com 2019 pelo fim de 2022 e destacou produtos que estavam mais caros no encerramento do governo Bolsonaro. Também tenta desmontar vídeos enganosos sobre a carestia. Em um deles, uma consumidora dizia ter gasto R$ 626 sem levar carne, embora a nota registrasse cerca de R$ 141 em carnes e derivados.

Fim da escala 6×1

A campanha de Lula pretende fazer dessa comparação uma linha permanente, mas sabe que planilhas não bastam. Por isso, o fim da escala 6×1 foi escolhido como uma de suas principais bandeiras. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), abriu a tramitação da proposta na Casa, e o governo tenta levá-la ao esforço concentrado do início de setembro. A janela é estreita, e a resistência empresarial é relevante.

Mesmo sem aprovação antes da eleição, a 6×1 já cumpre função política. Ela leva a economia do dinheiro para o tempo e fala de descanso, família e qualidade de vida. É uma tentativa de atualizar a identidade trabalhista de Lula para além da memória das fábricas do ABC. E de obrigar a direita a explicar sua posição sobre uma pauta de apelo popular.

Taxa das blusinhas

A outra aposta é a medida provisória que zerou o imposto federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, a “taxa das blusinhas”. Lula gravou um vídeo cobrando a votação, e o governo orientou aliados a pressionar o Congresso. Se a MP não for aprovada até 8 de setembro, a cobrança volta a menos de um mês do primeiro turno. A isenção ajuda a falar com o consumidor, mas abre um flanco com o varejo e a indústria nacionais.

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A entrada da eleição na vida concreta não elimina a ideologia. Apenas muda sua tradução. Inflação passa a ser compra de supermercado. Direito trabalhista vira domingo em casa. Política tributária aparece no preço de uma encomenda. Proteção à indústria se mistura ao emprego no comércio. É nesse plano que ideias abstratas passam a produzir identificação ou rejeição.

Com o início oficial da campanha, Lula e Flávio deixam um pouco a disputa por biografia e pertencimento para competir pela interpretação da rotina do eleitor. A oposição conserva a vantagem de apontar o incômodo. O governo tem argumentos, algum alívio recente e pautas populares, mas precisa provar que tudo isso chegou à vida real. A eleição continuará nos palanques. Seu teste, porém, será feito no caixa, no relógio de ponto e dentro de casa.