Para vencer, Flávio Bolsonaro precisa de vice mulher ou personalidade anticorrupção

Para um candidato a presidente que chegou à convenção partidária sem conseguir indicar um vice nem costurar alianças com outros partidos, Flávio Bolsonaro (PL) não poderia ter recebido notícia melhor do que a pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (3/8).

Em relação ao levantamento divulgado em 27 de julho, os resultados mais recentes mostram uma recuperação de quatro pontos percentuais no primeiro turno (variação de 33% para 37%), o que coloca o senador em empate técnico com o candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tem 41% das intenções de voto. No segundo turno, a vantagem numérica do incumbente é ainda menor (46% a 45%).

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É como se o furacão político que atravessou a campanha do candidato da extrema direita com fissuras em família — notadamente com a madrasta Michelle Bolsonaro (PL) — e a associação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro não tivesse deixado marcas significativas. Assim, com poucos dias restantes para a definição do vice na chapa, que deve ocorrer até esta quarta-feira (5/8), Flávio ganha mais liberdade para escolher alguém de perfil protocolar ou um político discreto o suficiente para não atrapalhar um eventual mandato. Nesse contexto, surge o nome do astronauta Marcos Pontes, integrante de seu próprio partido. Pontes não disputará a eleição, já que seu mandato de senador só se encerra em 2030.

Para avançar sobre um eleitorado que ainda lhe é bastante refratário, porém, o ideal seria escolher uma mulher para a vice. O problema é que os nomes mais fortes de seu campo político estão envolvidos em outras disputas não majoritárias, como Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado pelo PL no Distrito Federal.

Sua entrada na disputa faz parte da estratégia bolsonarista de conquistar maioria na Câmara Alta e, com ou sem a retomada da Presidência, criar condições para levar adiante sua agenda de guerra cultural e, sobretudo, o avanço no confronto institucional, especialmente contra o Supremo Tribunal Federal (STF), cujos ministros estariam sujeitos a impeachment com um Senado majoritariamente à direita.

Para além da recuperação de Flávio, o dado mais interessante da pesquisa BTG/Nexus está na escala de prioridades do eleitorado a pouco mais de dois meses do primeiro turno. A segurança pública/violência/criminalidade aparece como o maior problema do país até mesmo entre eleitores que preferem ver Lula eleito (31%, contra 29% dos que manifestam preferência pelo senador e 30% por aqueles que gostariam de ver outro nome que não os dois no Planalto).

A principal diferença entre os dois campos, contudo, surge no tema da corrupção, com 12% das escolhas de maior problema entre os que preferem a vitória do incumbente contra 24% dos que gostariam de ver Flávio Bolsonaro eleito. Entre os “nem-nem”, 22% escolhem a corrupção como principal problema, aproximando-os, portanto, do lado bolsonarista.

Nesse sentido, cabe ressaltar que o único fato novo desde a realização da BTG/Nexus anterior que possa ter ajudado o senador entre eleitores focados na agenda anticorrupção foi a participação do presidente argentino Javier Milei na convenção do PL, que proferiu xingamentos a Lula, chamando-o de presidiário.

Portanto, embora a família Bolsonaro — e o próprio Flávio — tenha se envolvido em escândalos e situações promíscuas, o bolsonarismo ainda se beneficia do que se poderia chamar de rescaldo do lavajatismo. Por isso, cabe perguntar se a melhor saída para conquistar eleitores centristas, ainda que de última hora, não estaria na escolha de um vice capaz de oferecer uma resposta simbólica à corrupção em vez de buscar um nome atrelado à segurança pública.

O senador precisaria encontrar, em pouco mais de 48 horas, alguém suficientemente neutro, com imagem de autoridade no tema e sem potencial para criar novos ruídos políticos. A essa dificuldade soma-se a necessidade de filiar o escolhido ao PL. A alternativa mais lógica à ênfase (contraditória) do bolsonarismo na anticorrupção seria arranjar para Flávio Bolsonaro uma vice mulher, em busca do eleitorado feminino, que está em massa com Lula.

Nesse caso, a opção mais plausível seria Renata Abreu, do Podemos. Seu partido tem origem histórica no antigo Partido Trabalhista Nacional (PTN), legenda pela qual Jânio Quadros se elegeu em 1960, com o apoio da União Democrática Nacional (UDN), que há mais de 60 anos empunhava a bandeira da moralidade na política e, com isso, atraía o voto urbano de classe média.

Uma chapa Flávio-Renata teria, portanto, um componente historicamente curioso: a eventual ressurreição eleitoral do bolsonarismo — que, na prática, nunca esteve morto — ao lado de uma espécie de reedição simbólica do janismo.

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Seria o encontro de dois populismos de direita, ambos com traços autoritários, ainda que muito distantes das ambições dos liberais, em particular na seara econômica. Estes, qualquer que seja o resultado das eleições, parecem destinados a sair como os grandes perdedores do processo eleitoral de 2026.

Estamos entre uma esquerda perdulária, mas democrática e leal à pátria, e um populismo de direita com pendores autoritários e entreguista, sem necessariamente apontar para um ajuste fiscal e reformas anticorrupção. Caberá ao eleitor e à eleitora escolher o “menos pior”.