Quando os rios adoecem

Costumamos medir a degradação da Amazônia em hectares desmatados e queimados. Desmatamento e queimadas continuam sendo a principal referência para avaliarmos a perda de integridade da maior floresta tropical do planeta. Mas outra transformação, igualmente profunda e potencialmente irreversível, avança de forma muito menos perceptível: a degradação de seus ecossistemas aquáticos.

A Amazônia abriga a maior bacia hidrográfica do planeta, formada por rios de águas brancas, pretas e claras, milhões de igarapés, lagos, praias fluviais, paranás, furos, várzeas, igapós e extensas áreas úmidas em territórios de nove países. Essa extraordinária rede de ambientes conecta rios, florestas e pessoas, molda paisagens, sustenta uma biodiversidade incomparável e garante modos de vida de milhões de amazônidas. Mais do que um conjunto de rios, ela constitui uma intrincada infraestrutura ecológica da Amazônia.

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O maior patrimônio dessa bacia não é apenas o volume de água que abriga, mas a conectividade entre seus ecossistemas. Os pulsos anuais de inundação transportam sedimentos, fertilizam florestas, regulam migrações de peixes, dispersam sementes e mantêm processos ecológicos que fazem a Amazônia funcionar. Quando essa conectividade é rompida, toda a floresta perde capacidade de se manter resiliente.

É justamente sobre essa infraestrutura ecológica que empreendimentos humanos como a construção de hidrelétricas, a urbanização e a mineração, em especial o garimpo de ouro vêm produzindo impactos crescentes.

Muito além do mercúrio, da violência, das invasões de terras indígenas e do desmatamento, o garimpo contemporâneo, altamente mecanizado e frequentemente organizado em escala empresarial, passou a transformar de forma irreversível, rios inteiros.

Altera canais fluviais, revolve sedimentos acumulados durante séculos, assoreia igarapés, elimina praias de reprodução de quelônios e outras espécies, aumenta a turbidez das águas e mobiliza mercúrio ao longo das cadeias alimentares. Os danos extrapolam os locais de extração e percorrem as bacias hidrográficas de forma sistêmica com seus efeitos atingindo milhares de quilômetros.

O caso da Terra Indígena Munduruku ilustra essa transformação. Relatórios do Greenpeace mostram que a rápida expansão do garimpo vem convertendo trechos inteiros da rede hidrográfica em paisagens degradadas, comprometendo a qualidade da água, a pesca, a biodiversidade e a segurança alimentar das comunidades.

Segundo a rede MapBiomas, 92% da área garimpada do Brasil está na Amazônia e 77% dessas áreas localizam-se a menos de 500 metros de rios, lagos ou igarapés. O garimpo depende da água e, por isso, seus impactos acompanham o fluxo das águas.

A fragilidade na proteção de terras indígenas, unidades de conservação, a existência de uma grande extensão de florestas públicas não destinadas e a falta de critérios rigorosos de controle sobre este tipo de atividade têm levado a um aumento de escala dessas atividades, dos danos sociais e ambientais causados.

Igarapé Grande na bacia do rio Parauari ainda não registra garimpo, mas é ameaçado pela atividade / Crédito: Carlos Durigan

Mais do que degradar ambientes, essa atividade rompe processos ecológicos. Compromete a renovação das várzeas, interfere na migração de peixes, reduz a dispersão de sementes realizada por espécies frugívoras, simplifica habitats aquáticos e contamina organismos ao longo das cadeias alimentares. A perda de integridade dos rios reduz também sua capacidade de produzir alimentos, sustentar economias locais e manter culturas profundamente ligadas às águas.

As consequências extrapolam a dimensão ambiental. Povos indígenas, comunidades ribeirinhas e populações urbanas dependentes da pesca convivem com insegurança alimentar, riscos à saúde pela contaminação por mercúrio e conflitos crescentes. Em torno do garimpo prosperam organizações criminosas, grilagem de terras e economias ilegais. Não são problemas isolados, mas diferentes expressões de um mesmo processo de degradação.

Esse cenário expõe ainda um paradoxo que vai além das questões legais e normativas que deveriam regular a atividade garimpeira. O Código Florestal define que se deva proteger cursos d’água e suas margens como Áreas de Preservação Permanente, reconhecendo seu papel para a conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos. Ainda assim, assistimos à degradação dos próprios leitos fluviais em uma escala impensável para qualquer outro ambiente protegido.

Como chegamos a esse paradoxo? Como naturalizamos a destruição justamente dos elementos naturais que estruturam a maior floresta tropical do planeta? E como ainda vemos avançar uma atividade tão danosa sem controle?

Responder que o problema é apenas o garimpo ilegal já não é suficiente. Um estudo recente do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio) demonstra que a legislação mineral brasileira continua baseada na imagem de um garimpo artesanal de pequena escala, enquanto a realidade amazônica é marcada por operações mecanizadas, cadeias empresariais complexas e controles ambientais claramente insuficientes para proteger ecossistemas de tamanha sensibilidade.

O debate nacional concentra-se, legitimamente, na origem do ouro e nos mecanismos de controle sobre o mercado do produto, mas ainda dá pouca atenção ao destino dos rios onde as atividades têm se expandindo. Essa mudança de perspectiva é urgente, sobretudo em um momento em que a Amazônia enfrenta secas recordes, cheias extremas e alterações cada vez mais intensas em seu regime hidrológico.

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A ciência vem mostrando que a capacidade da floresta de enfrentar as mudanças climáticas dependerá, em grande medida, da integridade de seus sistemas aquáticos. Degradá-los significa reduzir a resiliência da própria Amazônia.

O ouro retirado dos rios rapidamente desaparece nas cadeias globais de comércio e leva riqueza a um grupo reduzido de pessoas. Os rios permanecem, ou pelo menos deveriam permanecer. Se perdermos essa rede complexa de ecossistemas aquáticos, perderemos muito mais do que rios. Perderemos a capacidade da Amazônia de continuar sendo Amazônia.