A convenção do PSD, realizada no último domingo (26/7), em São Paulo, marcou uma inflexão importante na história do partido e na campanha de Ronaldo Caiado a presidente. Tudo somado, representa a mais arrojada aposta de Gilberto Kassab, fundador da sigla, desde que entrou para a política no início dos anos 1990.
Em 2011, quando anunciou a criação do PSD, Kassab, então prefeito de São Paulo, disse que sua criatura não seria “nem esquerda, direita ou centro”. Com essa fórmula mágica, quase esotérica, o dirigente fez o partido se tornar um dos maiores do país desde então, sempre evocando uma espécie de “neutralidade política e ideológica”. O segredo, em linhas gerais, era focar na eleição de parlamentares e tomar parte de governos que lhe oferecessem uma participação relevante, não importando o espectro político-ideológico do Executivo.
Assim, o próprio Kassab, com sua neutralidade pragmática “a favor do Brasil”, foi ministro do governo Dilma Rousseff (PT) e do sucessor dela na Presidência, Michel Temer (MDB), até hoje acusado pela esquerda de ter tramado um “golpe branco” contra a petista. Mais recentemente, o fundador do PSD ocupou uma secretaria no governo de São Paulo, comandado por Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), enquanto o PSD estava à frente de três ministérios de Lula.
A fórmula da neutralidade pragmática “a favor do Brasil” tinha tudo para dar certo novamente nesta eleição: Tarcísio e Lula são favoritos para se reeleger. Porém, Kassab decidiu que era hora de o PSD tentar um voo mais alto.
A neutralidade do PSD foi liberada nos estados — ou seja, cada candidato a governador apoia quem quiser nacionalmente —, mas o partido decidiu concorrer com chapa pura ao Planalto, justamente quando outros importantes expoentes do Centrão, sem tradição de lançar candidatos a presidente, como União Brasil, Progressistas, MDB e Republicanos, resolveram sequer apoiar os nomes já colocados para presidente.
Com o Centrão em busca de “neutralidade”, Caiado ficou sem muitas alternativas para compor sua chapa, e Kassab dobrou, pela primeira vez, a aposta. O presidente do PSD, em acordo com o candidato, assumiu ele próprio o posto de vice. Uma clara sinalização de que o projeto presidencial é para ser levado a sério.
Frango de granja
Na convenção de domingo, Caiado e Kassab subiram ainda mais o valor da aposta para não deixar dúvidas de que entraram para ganhar e não querem aliviar para ninguém. O candidato a presidente, tendo o vice a seu lado como fiador, rasgou a fantasia de “moderado” exigida pela “terceira via” e pegou pesado com Lula, mas também com Flávio Bolsonaro (PL), a quem vinha tratando com um certo respeito estratégico por ambos serem da oposição ao petista e com história na direita.
Até então, havia no entorno de Caiado quem lhe assegurasse que “bater em Flávio” só serviria para afastar dele próprio o eleitor “bolsonarista”, fiel ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio e responsável pela candidatura presidencial do filho. O conselho, porém, não reverteu sua estagnação nas pesquisas, na casa dos 4% de intenção de voto.
Na convenção, a estratégia de preservar o primogênito de Jair Bolsonaro se transformou em página virada. Entre outros ataques, Caiado disse que a direita não pode ter um “candidato Kinder Ovo, que vem com uma surpresinha todo dia”, um “frango de granja” que “lê cartas do papai”.
Citou “rachadinhas” e “Banco Master” quando falava genericamente de escândalos de corrupção que assolaram o país nas últimas décadas. Os dias em que Caiado se limitava a dizer que tinha mais “experiência” do que Flávio parecem ter ficado para trás. Sobre Lula, o candidato do PSD também subiu o tom: “Comigo, bandido não se cria. Corrupto não se cria. PT não se cria”.
A aposta é clara e muito arriscada: mostrar-se mais antipetista do que Flávio, mas acenando para o eleitor de centro-direita que não está satisfeito com a candidatura do filho de Jair Bolsonaro, seja por questões éticas e morais ou porque não enxerga nele “punch” para vencer Lula. O perigo dessa estratégia é Caiado passar a ser identificado como um “candidato nem-nem”, aquele que não é nem uma coisa nem outra e acaba rejeitado nas urnas.
É pouco provável, no entanto, que Caiado, com sua contundência, se transforme em um nem-nem. Por isso, a estratégia da metralhadora giratória. Para o eleitor de centro-direita que rejeita os Bolsonaros e Lula (os chamados “independentes”) e para o mercado financeiro da Faria Lima, as críticas a Flávio soam como música. Mas qual o real tamanho desse eleitorado? Será ele suficiente para promover alguma mudança? O bolsonarismo, historicamente, não costuma ter menos de 25% dos votos e não gosta muito de ver um dos seus líderes ser atacado.
Para Kassab, o risco dos novos rumos adotados pela campanha é queimar suas pontes com as duas pontas da polarização, especialmente com Lula e o PT. Afinal, mais do que fiador da candidatura, o presidente do PSD se tornou parceiro de chapa da metralhadora Caiado, que o agradeceu várias vezes na convenção pela oportunidade de disputar a Presidência.
Se tudo correr como esperado por Kassab, Flávio vai “derreter” nas pesquisas, assolado por suas ligações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master, e pelas disputas familiares com Michelle Bolsonaro, sua madrasta. Caiado chegará ao segundo turno e terá chances de derrotar Lula, pois possui menor rejeição do que o filho do ex-presidente.
No entanto, se a polarização entre PT e PL prevalecer e a candidatura do PSD não decolar, somente a eleição de uma grande bancada congressual poderá justificar a aposta mais arrojada da trajetória de Gilberto Kassab, que trocou a “neutralidade” estratégica no primeiro turno pela contundência de Caiado.

