O senador Flávio Bolsonaro foi oficializado neste sábado (25/7) candidato do PL à Presidência da República, sob o slogan de “filho da esperança”, em convenção realizada em São Paulo. Principal estrela do evento, o presidente da Argentina, Javier Milei, assumiu o papel de cabo eleitoral do senador em uma cerimônia marcada pela tentativa de impulsionar uma candidatura que ainda chega à campanha sem candidato a vice, sem apresentar um programa de governo e após meses de turbulências políticas.
Mesmo ausente por cumprir prisão domiciliar, o ex-presidente Jair Bolsonaro também dominou a convenção. Depois do discurso de Milei, os telões exibiram um vídeo produzido com inteligência artificial em que uma versão de Jair Bolsonaro apresenta Flávio como seu sucessor. A própria gravação advertia que não se tratava do ex-presidente, mas de imagens e voz criadas por IA.
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“Nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança que despertamos. Milhões de brasileiros acreditam no nosso país”, dizia o vídeo. Na sequência, a versão virtual de Bolsonaro pediu que os apoiadores recebessem “de braços abertos a pessoa que escolhi para me substituir”. “Sangue do meu sangue, meu filho Flávio Bolsonaro. Venham com fé. O Brasil tem futuro, e o futuro é Flávio Bolsonaro presidente”, concluiu.
A presença de Jair Bolsonaro foi constante nos discursos, nos jingles, nos vídeos e no esforço explícito de associar a imagem dele à do filho. A tentativa de apresentar Flávio como herdeiro político direto do pai deu o tom do evento. Os jingles exaltavam a “família Bolsonaro”, anunciavam que “o capitão voltou” e reforçavam referências ao “01” e ao “sangue de Jair Bolsonaro”.
Ao discursar, Flávio Bolsonaro disse: “Pai, eu vou te honrar e você vai colocar essa faixa de presidente em mim, em janeiro do ano que vem, em nome de Jesus. E vou honrar também as centenas de famílias injustiçadas por parte do Judiciário brasileiros, reconhecido mundialmente por calar e punir inocentes”. O senador fez ainda um aceno às mulheres, com agradecimentos à esposa, Fernanda Bolsonaro, e à mãe, Rogéria Bolsonaro.
Quando foi chamado ao palco, o presidente da Argentina, Javier Milei, fez diversos ataques à esquerda e ao presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, a quem chamou de criador do Foro de São Paulo, ao lado de Fidel Castro. Também xingou o ministro Alexandre de Moraes, que o impediu de visitar Jair Bolsonaro.
A convenção foi aberta pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que exaltou a própria trajetória política e disse ter acompanhado sete presidentes da República e lideranças como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. Ainda assim, afirmou que Jair Bolsonaro foi o maior líder que conheceu.
No palco, estavam parlamentares e candidatos do PL. A tônica dos discursos foi o pedido de união da direita, como nas falas do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Nome preferido de setores do empresariado e do mundo político para disputar o Planalto, Tarcísio fez um discurso repleto de acenos a Flávio e afirmou que o senador não chegou à candidatura apenas por causa do sobrenome.
Em resposta indireta às críticas sobre a inexperiência de Flávio, o coordenador da campanha, Rogério Marinho, afirmou que “Deus não escolhe os capacitados, Deus capacita os escolhidos”. “Estou com Flávio há sete meses e o que tenho visto é alguém determinado, resiliente e com o propósito de servir ao povo brasileiro”, acrescentou.
Em um auditório que foi se esvaziando ao longo da manhã, Flávio permaneceu no palco ao lado da esposa, da mãe, do irmão Jair Renan, de políticos com mandato e de candidatos do partido, entre eles Sergio Moro, Maria do Carmo e Efraim Filho, que disputam governos estaduais. Também participaram, por vídeo, os irmãos Carlos e Eduardo Bolsonaro.
Presença de Michelle
Michelle Bolsonaro não compareceu ao evento, mas gravou um vídeo, exibido durante a convenção. Na mensagem, fez apenas uma breve referência a Flávio Bolsonaro no encerramento. Ainda assim, sua ausência física foi sentida: militantes fizeram fila diante de totens de papelão em tamanho real com a imagem da ex-primeira-dama para tirar selfies. Segundo aliados, Michelle permaneceu ao lado de Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.
A participação por vídeo ocorreu dois dias depois da tentativa pública de reaproximação entre os dois. Na quinta-feira (23/7), Flávio divulgou uma gravação em que pediu união, exaltou o trabalho de Michelle à frente do PL Mulher e se desculpou “por momentos que causaram desconforto”. Horas depois, ela curtiu a publicação e afirmou aceitar o pedido, embora tenha reservado para um encontro pessoal o “alinhamento definitivo” entre ambos.
Sem vice, sem plano de governo
Como esperado, o senador subiu ao palco da Arena Mercado Pago com a chapa incompleta. A vaga de vice permanece aberta, assim como as diretrizes do programa de governo. Flávio Bolsonaro chega, assim, ao início formal da campanha sem um companheiro de chapa definido — situação que nem Jair Bolsonaro enfrentou em 2018, quando anunciou Hamilton Mourão, do então nanico PRTB, como vice.
Na área econômica, os bastidores dos últimos dias indicaram um recuo na proposta de suspender a reforma tributária. Como mostrou o JOTA, o adiamento chegou a ser tratado como provável diante das críticas do senador à carga tributária resultante da reforma e da defesa de interromper sua implementação por um ano. Agora, integrantes da pré-campanha afirmam que o objetivo passou a ser aperfeiçoar o modelo e corrigir distorções.
Sequência de crises
A tentativa de reaproximação com Michelle é apenas um dos movimentos feitos por Flávio para tentar virar a página de uma sequência de desgastes acumulados ao longo da pré-campanha.
Nos últimos meses, o senador viu sua articulação política patinar, foi associado ao noticiário negativo sobre o tarifaço de Donald Trump e o caso do Banco Master, enfrentou a repercussão do filme Dark Horse — que revelou conversas suas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro — e passou a conviver com fogo amigo de diferentes setores da direita. Na quinta-feira tornou-se pública a informação de que Flávio Bolsonaro passou a ser formalmente investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) pela sua atuação em busca de dinheiro para viabilizar o filme que conta a história de Jair Bolsonaro.
O episódio mais emblemático ocorreu quando Michelle Bolsonaro divulgou um vídeo acusando o enteado de ignorá-la e maltratá-la. Apesar da trégua construída às vésperas da convenção, Flávio continua sob pressão de setores do empresariado e até mesmo de integrantes do bolsonarismo para desistir da candidatura, embora essa hipótese seja considerada remota por seus próprios interlocutores.
Pesquisas
Apesar desse cenário, Flávio Bolsonaro segue competitivo, mas esbarra em uma dificuldade que já se arrasta: converter em votos a desaprovação ao governo Lula, ainda majoritária no conjunto das pesquisas. A polarização, embora menos intensa do que em 2022, continua influenciando o comportamento do eleitor.
O ambiente lhe é favorável no discurso, mas não nas pesquisas de intenção de voto. Os levantamentos mantêm o senador próximo de Lula, porém quase sempre atrás.
No consenso calculado pelo agregador do JOTA, Flávio Bolsonaro soma 32% no primeiro turno e 41% no segundo, contra 40% e 46% do presidente Lula, respectivamente. A distância diminui na simulação de segundo turno, mas não desaparece.
O gargalo não é novo. Desde as campanhas de Jair Bolsonaro, em 2018 e 2022, o principal desafio do bolsonarismo continua sendo romper a resistência entre as mulheres e o eleitorado de centro, justamente os segmentos em que Lula concentra sua maior vantagem.
Nesse ponto, a aritmética pesa: como as mulheres representam a maioria do eleitorado, cada ponto perdido nesse grupo tem impacto relevante no resultado agregado. É nesse flanco que a eleição tende a ser decidida.
(Com Fábio Pupo e Daniel Marcelino)

